Thursday, October 16, 2008

Aos Domingos

Havia os Domingos de Verão e, os de Inverno.

Tomar é frio no Inverno. Convidava à permanência em casa, à roda da braseira, aos longos e pesados almoços que, meu Pai adorava. Por vezes com amigos ou, em casa de amigos, por vezes, com uma ida ao cinema. Eu e o meu irmão, éramos assíduos frequentadores deste, quando havia filmes de “cow-boys”. No meio de meia dúzia de rapazes, era a única miúda, ainda por cima, com alguma diferença de idade.

Eu adorava, eles, coitados, aturavam-me.

Mas, chegada a Primavera, raro era o Domingo que, ficávamos em casa. De véspera, minha Mãe, preparava o farnel: pastéis de bacalhau, croquetes, rissóis, presunto, pão, fruta, vinho é claro, uma toalha de riscado azul e branco, guardanapos (de pano, não havia de papel) e, no Domingo de manhã, lá íamos nós, felizes e contentes, para mais um belo “Piquenique”. Os destinos eram, geralmente, um de três: ”Marmelais”, quinta de uns amigos, ”Charolinha do Convento” ou, nos dias mais abonados, um táxi, levava-nos ao “Agroal”. Chegados ao destino, a primeira coisa era pôr o vinho e os refrescos, em sítio fresco. Não, não havia arcas térmicas e, não faziam falta. Em Marmelais, havia um poço, fresco, onde, presas por cordas, as garrafas refrescavam. Na Charolinha, havia uma mina de água gelada, que substituía o frigorifico. No Agroal, a água da nascente, gelava bebidas e, os mais afoitos que, cheios de coragem, se lançavam nela. Eu, só gelava os pés, porque já nesse tempo, detestava água fria.

Eram dias, felizes, saudáveis, pouco dispendiosos. Geralmente, éramos muitos. Ao nosso grupo de cinco, juntavam-se mais grupos de amigos. Nós, miúdos, corríamos no meio de árvores, pedras, animais, sem medos, sem avisos de perigos que, aliás, não existiam. Os mais velhos, dormiam, liam os jornais, conversavam, as senhoras faziam crochet, bordavam, coisas lindas que, iriam alindar as suas casas, trocavam receitas.

Quando a tarde caía, era o regresso a casa, longo, muito longo. As nossas pernitas, tinham andado muito, as nossas cabeças, tombavam de sono. Ai, se eu pudesse voltar a esses dias! Se eu pudesse trazer de volta, aqueles que perdi!

E posso. Ainda agora os trouxe. Enquanto escrevi, eles voltaram todos. Os sítios, as pessoas, os dias, a alegria de os ter vivido.

Agora é altura de pagar a conta. Chegou a SAUDADE, algumas lágrimas, a certeza de que tudo isto acabou. Mas vale a pena pagar a conta, destes minutos, em que voltei a ter os que amei, as minhas tranças, abanando ao vento, as vozes das mães que, nos chamavam, para voltar a casa.

Até um dia destes          

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Tuesday, October 14, 2008

O Orador, o Empresário, o Hipnotizador e o Romântico

Hoje são 4, as figuras de Tomar do meu tempo. Sei pouco deles, apenas algumas histórias. Não tenho fotografias, nem documentos, só lembranças.

1º- O Orador - Chamava-se Manuel, por alcunha o “Jeitoso”. Tinha uma irmã, de seu nome Laurinda, “Jeitosa”, que levava o dia, com 2 latas ligadas por um cordel, penduradas ao pescoço. Batia nas latas com dois paus, não falava, mas toda a gente a conhecia. O irmão, não gostava da alcunha, ficava zangado, quando o tratavam por “Jeitoso”, bebia um bocado e, fazia discursos, que começavam invariavelmente assim: “Quem manda é Deus e Nossa Senhora. E em Tomar, quem manda, é o  Senhor Capitão Oliveira”. Depois, o discurso continuava, longo, ilógico, com algumas verdades pelo meio.

2º- O Empresário - Não sei o nome, mas a alcunha era “Troca a Nota”. Também bebia o seu copinho, mas parvo não era.

Um dia, alguém lhe propôs, fazer uns buracos no Mouchão, para espetar os paus que, iriam servir de base, às ornamentações, de uma das muitas festas, que se faziam em Tomar. Viu o trabalho, acertou o preço de cada buraco, (1$00 cada) e aceitou. Abriu 3 ou 4 buracos e, viu o irmão. Sem perder tempo com explicações, perguntou: “Queres ganhar umas coroas?” O irmão aceitou, ele disse-lhe qual o serviço e, que ganharia 50 centavos por cada buraco. Seguidamente, sentou-se na explanada da “Primorosa”, bebendo o seu copo e vigiando, o seu operário. Entretanto, passa a pessoa com quem ele tinha contratado o serviço que, lhe pergunta: “Então o trabalho?” A resposta, veio pronta e elucidativa: “Não se preocupe. Tenho pessoal a trabalhar por minha conta”. Enquanto respondia, apontava o irmão que continuava a fazer os buracos. E era parvo?

3º- O Hipnotizador - Também não lhe sei o nome. Era conhecido por “Dona Inês”. Porquê? Também não sei. Bebia como uma esponja. Acho que era o seu estado normal. À tardinha, ia à “Casa dos Pobres” buscar sopa, com uma panela. A essa hora, já as pernas não o ajudavam muito. Caía, largava a panela que, rolava rua abaixo, tentava levantar-se, caía de novo e, então, começava o monólogo, sempre igual, tentando convencer a panela, a ir ter com ele. Ela não ia, ele ralhava com a panela e, a cena durava até passar uma alma caridosa, que o levantava, apanhava a panela e, às vezes, o guiava, até à “Casa dos Pobres”.

4º- O Romântico - Chamava-se Martinho, era de Alcobaça, vivia na “Casa dos Pobres”, fazia anos no dia de São Martinho. Alto, magro, vestido de escuro, amparado a uma espécie de cajado, entrava na minha rua, a cantar: “Nesta rua vou entrandó, pra falar ó mê amori…”

Parava e, dizia: “Oh Martinho, põe-te a pau. Tás grosso, ó quê?”

Andava mais uns passos e, em frente de janela onde houvesse menina cantava:  
                           ”Menina que estás à janela,

                             A comer teu pão com queijo

                             Faz dos braços uma arma

                             E atira-me lá um beijo”

Este Martinho, era o preferido do meu Pai, por ser de Alcobaça, como ele. Ao sábado, subia a escada do meu prédio e, eu era encarregada de lhe entregar, um pão com carne, um copo de vinho e um cigarro. O meu discurso era sempre o mesmo: “A mãe dá o pão, o pai dá o vinho, a menina o cigarrinho”. A menina era eu. Maldito cigarro! Já aos 3, 4 anos, fazias parte da minha vida.

No dia 11 de Novembro, dia de São Martinho, o meu pai, mandava-o entrar e dava-lhe almoço completo. Um dia, desapareceu. Disseram-nos que, estava em Alcobaça num Asilo.

Hoje, dediquei-me a estes 4 homens. Eram figuras de Tomar.

Diferentes, mas nunca maltratados por ninguém. Em Tomar, não se tratava mal ninguém. Brincava-se, com as manias de cada um, mas sempre com respeito, com amizade.

Ainda será assim? Não sei. Isto, passava-se, no tempo do “Nosso Capitão Oliveira”, como diria o Manel Jeitoso, e eu subscrevo.

Até um dia destes

Maria     

 

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Monday, October 13, 2008

Lavadeiras, as heroínas do Rio

Quando hoje, temos roupa para lavar, basta separá-la, metê-la numa máquina, pôr detergente, amaciador, programar, carregar no botão e, passado um bocado, tirá-la e pendurar a secar. Algumas vezes, até já vem seca. Cómodo, rápido e fácil. Nem sempre foi assim.

Antigamente, quem tinha tanque e sítio para pôr a roupa a secar, fazia-o em casa. Quem vivesse num andar, sem tanque, nem sítio para estendal, recorria às lavadeiras. Era este, o caso da casa onde nasci. A nossa lavadeira, chamava-se Guilhermina. Era alta, sempre vestida de preto, como qualquer viúva desse tempo. Uma vez por semana, ia lá casa, entregar a roupa da semana anterior e,  levar a da semana. Não era, assim, toma lá, dá cá. Havia um cerimonial demorado, entre a lavadeira e a freguesa. Primeiro, conferia-se o “Rol da roupa” lavada. No seu livro de assentos, a freguesa, tinha apontado, todas as peças entregues, na semana anterior. Conferia-se a roupa levada e trazida. Geralmente, batia certo. Depois, fazia-se o “Rol da roupa suja” da semana em curso.

Exemplifico: 4 lençóis, 4 fronhas, 6 toalhas turcas, 2 toalhas de mesa, 8 panos da loiça, enfim, toda a roupa suja. A lavadeira lá ia, com a trouxa à cabeça, direita ao açude de pedra, onde a esperava uma caixa de madeira, para os joelhos, o velho sabão azul e branco, uma escova. Depois, eram mãos, por vezes já marcadas de frieiras, feridas, pernas que gelavam na água, braços cansados de tanto esfregar, bater, torcer e a água limpa, nesse tempo, do Nabão. Não importava a chuva, o frio, as fúrias do rio. Elas estavam lá, no seu  posto, heroínas, sem historia, sem monumentos.

Na semana seguinte, tudo se repetia. Os mesmos gestos, as mesmas palavras, a mesma roupa branca de neve, cheirando a sabão e a sol.

Ainda voltei, um dia, já mãe, a ver a nossa Sra. Guilhermina. Muito velhinha, mas direita, lúcida. Quando me viu, abraçou-me e disse de lágrimas nos olhos: “Ai minha menina, quando a vi, julguei que era a Mãezinha”. A minha Mãe já tinha morrido. Chorou ela, chorei eu e, os outros, acho que não choraram por vergonha.

Já não se lava roupa no Nabão, já não há lavadeiras, mas quando passo a ponte, sem querer, eu vejo-as lá. De verão ou de inverno, encharcadas até aos ossos, mas cumprindo a sua missão, como verdadeiras heroínas.

Um dia destes, talvez um presidente tomarense, tenha a sensibilidade suficiente, para lhes fazer um monumento, lá, no açude de pedra. Seria bonito e merecido. Elas foram as heroínas, repito, do nosso Rio.

Até amanhã. Eu vou voltar, com os meus amigos, as velhas coisas, de Tomar, de há 64 anos.   

 

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Sunday, October 12, 2008

Gente da minha Terra

Há muito tempo, que ando para falar de figuras que, marcaram a minha infância. Pessoas, de que me lembro com carinho e, que não esquecerei. Não foram grandes na política, nem escritores, nem músicos, nada disso. Desses, outros já falaram, têm ruas com o seu nome, museus, estátuas. Ninguém os vai esquecer. Admiro-os, orgulho-me de ser da sua terra, mas não me sinto capaz de falar deles. São os outros, os que povoaram o meu tempo de menina, me viram crescer e vi envelhecer. 
O primeiro da minha lista, teria que ser, aquele que mais me marcou, que
eu procuro às vezes, na memória, que um dia me pareceu ver num filme.

Quem não viu, “Encontro de Irmãos”? Lembram-se do Rainman? Eu conheci alguém em Tomar, que era… Não, não era o Rainman. Era o Senhor Lionel (com “i” mesmo) Carvalhais, mais conhecido por Nené Cebola. Era, um homem pequeno, magro, de óculos, com alguns tiques, muito educado, muito delicado.

Todos o estimavam, mas era um pouco troçado, sem maldade diga-se, por toda a gente. Vivia com a irmã, que fazia umas bonecas deliciosas pela sua singeleza. Ele encarregava-se da venda. Ao que sei, disso viviam.

Ora, este senhor, tinha um segredo. Sabia de cor os números de telefone de Tomar e Ferreira do Zêzere. Era assim: dizia-se um nome qualquer e, logo o senhor debitava o número de telefone.

Nesse tempo, os telefones particulares, não seriam muitos, mas havia muitas fábricas, muitas lojas, hospital, farmácias, bancos, repartições do Estado. O que pouca gente tinha, eram as listas dos telefones. Ele resolveu o problema. Desatou a fazer, pequenas listas, com todos os números e nomes, dos felizes proprietários de um telefone. A lista era esta, que eu guardo.

Tinha mais surpresas, o nosso Nené Cebola. Alguém dizia o nome completo, logo ele dizia quantas letras tinha o nome. Fazia contas  de cabeça, mais depressa do que qualquer máquina.

As listas eram vendidas por 7$50 cada. Não sei se isso lhe melhorou a vida, mas dava imenso jeito aos tomarenses.

A última vez que o vi, estava num café em Tomar, muitos anos, talvez 30, depois de ter saído de lá. Olhei-o, conheci-o e não resisti ao impulso de lhe falar. Disse simplesmente, o nome do meu Pai e, logo a resposta veio: Nome, emprego, número do telefone. Comovi-me, confesso. Ainda falámos um bocadinho e despedimo-nos, para sempre.

Temos, no nosso País, uma mania que, me irrita. Por exemplo: quando se fala de Aveiro, terra linda, vem sempre alguém que diz:

Aveiro, a “Veneza portuguesa”. Aristides Sousa Mendes, já foi chamado de “Raul Wallenberg” ou “Schindler”, português. Como se fosse impossível algo, ou alguém, português, valer por si próprio.

Por isso o meu héroi, é simplesmente, Lionel Carvalhais, ou Nené  Cebola. Uma figura de Tomar. Sem precisar de ir buscar comparações com ninguém.

Até um dia destes.

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Friday, October 10, 2008

Carestia da vida 2

Ontem, contei o que foi a vida dos meus Pais, há 55 anos.

Há 40, foi assim a minha: Tinha um marido, que ganhava 3.400 escudos. Tinha uma casa, com 5 assoalhadas, quase vazia, pela qual pagava 1.400 escudos. Tinha 2 filhos pequeninos. Não tinha frigorífico, nem máquina de lavar, nem esquentador, nem aspirador. Tinha um fogão, adquirido a prestações de 120 escudos. Tinha água e luz, para pagar. Tinha de comprar uma bilha de gás por mês, que me custava 31 escudos. Tinha de alimentar os filhos,  o marido e eu. Tinha dentro de mim, um amor imenso, pelo meu marido e filhos e, uma imaginação, que me faziam sentir muito, muito feliz.

Não havia, praticamente, móveis. O meu quarto, prenda de casamento dos meus Pais, as caminhas dos meus filhos, uma mesa e 2 cadeiras, emprestadas pela minha sogra, um velho canapé, sem um pé, uma estante improvisada, um velho gira discos. Como vêem, era um luxo. Havia, também, malmequeres, muitos malmequeres amarelos, que apanhava nos campos que rodeavam a minha casa.

Quanto ao orçamento, era bastante apertado. Os preços já não eram iguais aos de 1943. Assim, 1Kg de arroz, custava 8$00, 1Kg de açúcar 8$00, 1 Litro de azeite 33$00, 1Litro de óleo 17$00, um pacote de margarina de 250G 4$00, 1Kg de carne ia de 28$00 a 42$00, o peixe variava de preço, mas recordo-me de comprar berbigão a 5$00.

Posto isto, eu tinha de me esticar bem esticadinha, para chegar ao dia 26 de cada mês, sem dinheiro, mas sem dívidas. Quantas vezes, nesse abençoado dia, o meu marido, ia logo de manhã receber, para haver jantar! Nunca me senti infeliz, nesse tempo.

Tinha que aquecer água para os banhos, tinha que lavar no tanque, fraldas de pano dos meus filhos, roupa da casa, roupa nossa, tinha de a passar, tinha de varrer a casa, limpar o chão, tratar dos putos, brincar com eles, subir 4 lances de escadas, com um em cada braço, mais as compras diárias. Era um dia longo. Mas nunca me lamentei, nunca tive sequer, vontade de o fazer.

Fui feliz, então, sou feliz hoje, de uma forma diferente. A casa está cheia, os filhos (tive mais um, entretanto) estão arrumados, continuo a ter o meu amor, comigo, sempre. Já não preciso de contar os tostões (até porque já não existem), tenho esquentador, máquinas, até uma empregada para os trabalhos pesados.

Mas às vezes, vem uma saudade fininha, dos tempos antigos. Eu era tão nova e tinha tantos sonhos! Alguns foram realizados, outros, foram ficando pelos caminhos da vida. Mas “Confesso que vivi”.

Agradeço à vida tudo o que me deu de bom. Aceito, resignada, os desgostos, inevitáveis, que tive. E continuo a ser feliz, muito feliz.

Até um dia destes.            

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Thursday, October 9, 2008

A carestia da vida

De novo às voltas com os papéis velhos, encontrei um pequeno caderno, onde a minha Mãe assentava as contas da casa.

Naquele tempo, (perto do fim da 2ª Guerra Mundial) a vida era difícil. Havia racionamento, senhas para compras e… ordenados baixos. Era, portanto, fundamental que, o orçamento caseiro fosse feito de forma a que o dinheiro desse para tudo.

Ora, penso que, no dia 16-08-1943, a minha Mãe, gastou muito.

Vejamos:

 

               1 Kg de bacalhau                             12.50

               3 Kg de batatas                                 2.70

               1 Kg de carne de porco                     7.00

               1,5 Kg de massa                                6.00

               1 Kg de açúcar                                  5.40

               ½ Litro de feijão                                2.00

               ½ Litro de grão                                 2.00

               6 ovos                                              3.00

               1 Litro de vinho                                2.30

               1 cerveja                                           2.00

               2 Kg de carvão                                 1.40

               1 Litro de azeite                                7.00

               250 g de arroz                                  1.00

               Pão                                                  1.00

              ­­­­­­­­­­­­­­—————————————————— 

               Total                                               55.00

 

Se não me engano, isto traduz-se na moeda actual em mais ou menos 28 cêntimos.  Acho que neste dia, a minha Mãe, fugiu um bocado ao orçamento. 28 cêntimos por dia, mais uma renda da 140.00 escudos (70 cêntimos), mais a água, a luz, a lavadeira, a lenha, era muito dinheiro. Afinal, o meu Pai, queixava-se de ganhar pouco, fazia outros trabalhos por fora, porquê? O Estado pagava-lhe por mês o belo ordenado de 400.00 escudos (2 Euros)! Quem é que o mandou meter-se em cavalarias altas, e gastar num só dia 28 cêntimos?

Meus queridos Pais, que tanto se sacrificaram para criar 3 filhos e lhes darem uma vida decente.

Comecei isto a brincar, acabo com lágrimas nos olhos.

Isto não foi só aos meus Pais que aconteceu. Estou certa, que alguns de vós, os mais velhos como eu, viram aqui, a vida dos vossos Pais e a vossa infância.

Não entendam o que escrevi como um sermão. Pensem, que os mais velhos que nós, tiveram uma vida, talvez pior que a nossa.

 

Até um dia destes.                

Posted by Maria at 22:28:30 | Permalink | Comments (8)

Monday, October 6, 2008

Outra vez Açores

Há dias que, o meu coração voa para lá. Hoje, mais uma vez,

 “Pico”.

É no Pico, que vive a minha irmã. Foi lá, que nasceu e morreu o meu cunhado. “Um homem das Bandeiras”, como ele se classificava. Um homem que, viveu pouco, mas bem. Culto, não fazia alarde dessa cultura. Esteve na guerra em África, mas não contava o seu papel nela. Penso que, viu muita coisa triste, suja, mas não falava disso. Ajudou muita gente a morrer em paz, ajudou muita gente, a não enlouquecer. A vida dele foi sempre “Amar o próximo mais do que a si próprio”. Bom, como tenho conhecido pouca gente. Puro, mesmo tendo passado por sítios pouco puros.

Amigo, sem nada pedir em troca.

Eu disse que, ia falar do Pico e, falei. Ele, era a imagem do Pico: grande, modesto, amigo.

Tenho saudades dele. Tantas, que não vou dizer mais nada.

Um beijo para a minha irmã. Um ramo de violetas, para ele.

Até um dia destes.

 

Posted by Maria at 20:34:52 | Permalink | Comments (4)

Friday, October 3, 2008

Papéis velhos

Tenho umas três ou quatro caixas, cheias de papéis velhos, de variadas proveniências. Desde cartas de 1800 e troca o passo, escrituras, fotografias de pessoas que, nem conheci e, que ainda por cima estão apagadas, sem cor, sem definição, cartões de visita, bilhetes e… convites para festas familiares e outros. Às vezes, gosto de abrir uma delas e, quase sempre, encontro coisas engraçadas.

Desta vez, encontrei este convite:

É uma delicia. Aqui se vê, como era festejado o aniversário de uma criança de quatro anos.

Só espero, que não sirva de exemplo para nenhum aniversário dos vossos filhos e netos.

O programa era dividido em duas partes. Da primeira, logo a abrir constava “Tanhauser” de Wagner, seguida de “Keiner Valse” de Carrenno, “Absense” de Beethowen, “Preghiere” de Tosti, “Romanza” e ”Bolero” de Dancla, “Scéne de Ballet” de Beriot, “Printemps” e “La rose sauvage” de Shubert, “Minuetto del Bue”, de Haydn, “Trio” de J. Chr. Bach. Para finalizar em beleza, uma menina declamava, uns versos, de sua autoria e finalizava com mais uma valsa, “De fleur en fleur” de E. Gandolpo.

No intervalo, deveria ser servido o chá e os bolinhos de alguma das grandes pastelaria, da Baixa Lisboeta.

Depois, já com os estômagos aconchegadinhos, seguia-se a segunda parte do Concerto. Ora vejamos: “Cavallaria Rusticana” de P.Mascagni, “Gazouillement du Printemps” de Sinding, “Poeme érotique“ de Grieg, ”Soneto nº 24” de Camões  “Alguém” de Gonçalves Crespo e voltava a música: “Le jours s’éteint à l’horizont de pourpre”, “Vien douce mort” e “Reste calme reste en paix”, todos da autoria de Bach. Segui-se  “Minuetto” de Paderswski,  “Romanza” de Svenden, “Andante” do 7º concerto de Beriot, “Nocturno” de Chopin, mais uns versos e, terminava com “Amores de Principe” de E.Eysler.

Já estão a dormir, ou desistiram a meio? Eu fiquei com sono só de escrever. E o ”Joaquimzinho”? Para seu próprio bem espero que tenha adormecido, logo que começou, esta bela surpresa, que tão carinhosamente, lhe preparam.

Eu, se estivesse lá, no fim pediria que, me deixassem dizer uns versos de João de Deus:

 

“Que quem já é pecador,

sofra tormentos, enfim.

Mas as crianças, Senhor,

porque lhes dais tanta dor,

porque padecem assim?”

 

Até um dia destes.

Posted by Maria at 14:24:53 | Permalink | Comments (9)

Wednesday, October 1, 2008

Carta para meu Pai

Ias fazer hoje noventa e nove anos. Há sete anos, desististe de viver.

Que te fez a vida, para assim desistires, naquela altura?

Passaste as passinhas do Algarve, sofreste tanto, mas voltavas sempre a ser o mesmo. Alegre, divertido, culto, centro de todas as atenções, o fio condutor de todas as conversas.

Cansaste-te, Pai? Os últimos tempos foram duros. O sofrimento físico e moral, não te deixaram viver mais.

Fazes-me falta, Pai. Todos os dias, de uma maneira ou de outra, penso em ti. Às vezes, quando acontece qualquer coisa, a primeira reacção é: “Tenho que contar ao meu Pai”. Continuo a guardar os isqueiros vazios, para ti. Quando estou a escrever, penso: “Que dirá o meu Pai disto?” Lembro-me que, quando te mostrava alguma coisa que tinha escrito, às vezes, davas-me na cabeça. Ou porque tinha dito algum disparate, ou para me dizer: “Porque não escreves mais? Porque és tão mandriona? Para escreveres bem, tens de escrever muito.” Nunca te fiz a vontade. De vez em quando, lá saía  uma coisinha, e lá vinha o sermão.

Comecei a escrever aqui por brincadeira. Agora é uma necessidade, um vício. Quando escrevo, penso sempre, se me vais dar na cabeça, ou gostar. E como eu preciso que me dêem na cabeça! Preciso de alguém que me guie, porque isto não é fácil e, eu não vejo os meus defeitos. O único que te pode substituir, muito raramente o faz.

Mesmo assim, isto já tem quase um ano. Vou tentando, teimando, para tentar, pelo menos, não escrever muito disparate. Mas burro velho não aprende línguas e, eu sei que nunca chegarei aos calcanhares do mano ou do sobrinho. Também, era demais. Três a escrever bem, era muito. Gosto muito de escrever, mas não sei escrever bem. Isto, é um escape, uma brincadeira, mais nada. E faz-me bem, Pai. É uma maneira de pôr cá para fora, aquilo que sinto.

Mas não substitui as nossas conversas intermináveis, interminadas.

Não há nada que apague a tua voz chamando: “Mina fila”, os teus olhos, quando me olhavas, o último beijo que te dei, que tu retribuíste com um olhar que, era já Adeus.

Se tu pudesses ver isto, verias uma fotografia de nós dois. Escolhi-a, porque para mim, ela representa bem, o que fomos um para o outro, até ao fim.

Adeus meu primeiro e grande amor. Vou terminar, porque as lágrimas já estão a correr e tu, nunca gostaste de me ver chorar.

Um beijo, Pai. Um daqueles raros beijos que, a tua filha sempre avessa a manifestações de ternura, só dá às vezes.

Nós até um dia destes.

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Sunday, September 28, 2008

Os olhos de Paul Newman

Eram azuis, de um azul claro, transparente, espelhos de uma alma boa. Era belo, sem ser efeminado. Com uma esplendida figura, que manteve até ao fim, um rosto perfeito, expressivo e aqueles olhos, que eram doces, trocistas, tristes ou duros, conforme o papel o exigia. Nunca deu azo a falatórios, escândalos ou boatos. A sua vida particular era como os olhos, transparente. Casado desde 1958 com a actriz Joanne Woodword, faziam um dos poucos casais, que “viveram felizes para sempre”, ou melhor “até que a morte os separou”.

Foi piloto da Marinha dos Estados Unidos, durante a 2ª guerra mundial. Gabava-se, de ter feito parte da lista de inimigos de Nixon.

Disse, várias vezes, que a sua beleza, o tinha prejudicado como actor. Segundo dizia, não lhe deram alguns papéis que gostaria ter feito, por ser demasiado bonito. Era, no entanto, um bom actor. Versátil, sóbrio, encarnava na perfeição, todos os personagens que lhe eram dados. De “Gata em telhado de zinco quente”, com Elisabeth Taylor, passando por “Butch Cassidy” e “A Golpada” com Robert Redford, “O Veridicto” com Charlotte Rimpling”.

Foi também corredor de automóveis e, ainda mantinha uma escuderia da “Fórmula Indy”.

Quando o filho morreu com uma overdose, criou uma fundação para recuperação de toxicodependentes que, mais tarde, se estenderia a todos os jovens e crianças com problemas.

Para manter esta Instituição, formou uma fábrica de molhos, a “Newman’s Own”.

Resumindo: Era um homem bom, bonito, bom actor. E tinha os olhos mais belos do mundo do cinema.

Morreu ontem, em casa, junto da mulher e das filhas. Foram elas que viram, pela última vez, aqueles olhos azuis. Foi, de certeza, Joanne, que os fechou para sempre.

Este, é o meu adeus para o meu actor favorito. Restam-me os filmes.

Joanne, ficou só, depois de cinquenta anos. É uma mulher serena e forte e, irá continuar a obra do marido, até ao fim, lembrando sempre, esses olhos azuis, de que ela melhor que ninguém conhecia os cambiantes.

Até um dia destes. 

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