Monday, October 27, 2008

De volta a Miguel Torga

Há dias assim. Procuro fugir aos pensamentos, às lembranças, às preocupações. Preciso de me evadir, para um mundo diferente.

O destino é sempre o mesmo: Um livro de poesia. Às vezes um, outras vezes outro, dos nossos muitos poetas. Gosto muito, de muitos.

Cada um tem o seu lugar, o seu momento. Há, um especial: Miguel Torga. Não tem dia, nem hora. Dá-me sempre resposta, dá-me sempre prazer. Hoje, acordei com a ideia fixa, dos “Poemas Ibéricos”.

Abri o livro ao acaso. E, por acaso, num dos meus poemas preferidos: ”O Príncipe Perfeito”. Sendo, D. João II, o meu rei, voltei a ler o poema, uma, duas, três vezes. Não resisti ao desejo, de o partilhar convosco. Por isso, de Miguel Torga, “O Príncipe Perfeito”.

 

Um Príncipe Perfeito em Portugal,

Terra da imperfeição!

Que excessivo perdão

Pode ter quem é rei!

Na bainha do tempo, até o punhal

É uma arma leal!

Assim nela coubesse a alma que sujei…

 

Perfeito, eu! Perfeito

Um rei que desposava no seu leito

O luto incestuoso da rainha!

Perfeito, eu, que tinha

Um herdeiro da esfera adivinhada,

E o vi morrer, humano,

Com asas de exaurido pelicano,

Às portas da aventura começada!

 

Perfeito, eu! Perfeito

Quem viu agonizar dentro do peito

A grandeza da vida e quanto fez por ela!

Incapaz, a cobarde caravela

Que mandei ao seu último destino,

Desatado o nó cego, masculino,

Que no sonho enlaçava

A soberba cintura de Castela,

Que perfeição no mundo me ficava?

 

Pensei, lutei, matei – fiz quanto pude,

Mas em vão.

A quem Deus não ajude,

Tudo são Índias de desilusão.

 

É este, O Príncipe Perfeito, de Torga. É este, o meu Príncipe “Imperfeito” talvez, mas humano. Um rei que, tudo fez pelos Descobrimentos, que tudo deixou tratado, resolvido, para outro, mais “Venturoso”, colher a glória e os frutos. Não seria perfeito, mas a rainha de Castela que, o odiava e admirava, chamou-lhe: “El Hombre”.

Que elogio maior, lhe poderia ter feito?

E assim, Humanamente Imperfeito, foi o nosso maior e mais inteligente rei.

Até um dia destes.

  

Posted by Maria at 16:59:07
Comments

2 Responses to “De volta a Miguel Torga”

  1. carla mar says:

    Querida Maria :)

    Poucos homens marcaram mais o seu tempo e a história da Humanidade que D. João II, Rei de Portugal, a quem os inimigos apelidaram de “o Tirano” e os amigos de “o Príncipe Perfeito”. Tem sido referido que “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel, escrito cerca de 20 anos após a sua morte, pode ter sido, em parte, baseado na sua pessoa e nos métodos novos que introduziu na forma de fazer política e reger o reino.

    Tendo sido contemporâneo dos Médicis, D. João II foi o mais perfeito executante do conceito de pragmatismo político que se desenvolveu naquela época na Europa. Exemplificou, em Portugal, o poder do príncipe renascentista, contrastando o seu reinado com o do seu antecessor, D. Afonso V, que foi, também ele, um expoente, mas de outra época, a dos cavaleiros medievais.

    Para D. João II, o poder radicava todo na instituição real, por isso, baseou a sua acção na repressão do poder dos grandes, sem nunca se ter apoiado nos pequenos, alterando radicalmente a relação de poderes que existia nos tempos medievais que precederam o seu reinado.

    Nos primeiros tempos do seu reinado, surge em Portugal uma expressão nova: “Sua Majestade Real”, que representa um conceito de realeza completamente novo. Um dos seus biógrafos, Rui de Pina escreveu que: “Sendo senhor dos senhores, nunca quis nem parecer servo dos servos”.

    Miguel Torga é dos escritores Portugueses que mais aprecio. Soube cantar como ninguém o cheiro e as cores desta terra.
    Fica, um miminho, para ilustrar esta tarde de Outono… nostálgica!… mas, cheia de nuances encantatórias :)

    OUTONO

    Tarde pintada
    Por não sei que pintor.
    Nunca vi tanta cor
    Tão colorida!
    Se é de morte ou de vida,
    Não é comigo.
    Eu, simplesmente, digo
    Que há fantasia
    Neste dia,
    Que o mundo me parece
    Vestido por ciganas adivinhas
    E que gosto de o ver, e me apetece
    Ter folhas, como as vinhas

    Miguel Torga, Diário X(1966)

    Beijinho… e um soriso :)

  2. Anonymous says:

    Carla, mais uma vez me surpreendeste. Para mim, D. João II, o meu rei, foi e continua a ser, um rei mal amado, mal compreendido. Toda ou, quase toda a gente, dá a D. Manuel I, os louros das grandes descobertas, quando afinal, ele já encontrou tudo preparado.
    D. João, “El Hombre”, herdou um reino dividido pelos nobres, sobretudo Braganças e seus familiares. Dizem que, terá comentado que, o pai, o teria deixado rei das estradas.
    Na sua luta para recuperar o que, de direito lhe pertencia, semeou ódios, matou e mandou matar, parentes próximos, sofreu o desprezo da mulher que, sendo muito mesicordiosa, não o foi com ele, perdeu o filho e herdeiro, viu, o outro filho, afastado do trono, por vontade da rainha e, no fim, morreu tendo somente a seu lado, esse filho, filho do seu grande amor, Ana de Mendonça, a mesma que, deu o nome, à bela praia de Lagos. Dizem, que terá sido envenenado pouco a pouco. Todos os que amou, ou o traíram, ou o abandonaram, ou teve ele, que os afastar.
    Não teria sido perfeito, ninguém é. Mas foi um grande rei.
    “Tirano”, “Príncipe Perfeito”, “El Hombre”, tanto faz. Quanto ao “Prícipe” de Maquiavel,
    seria ele? Ou César Bórgia? Também não importa. É um livro excecional.
    E agora, Torga, esse Homem grande, como o negrilho à sombra do qual repousa, agarrado à sua terra, como a torga, que lhe enfeita a campa, esse ser humano maravilhoso, que tão bem usou a nossa língua, em prosa e verso, já muitos falaram dele, melhor que eu.
    Creio que li, toda a sua obra. Li, reli e, cada vez, é uma coisa nova. Uma frase, uma palavra, um conto, uma poesia.
    Troca por troca, “Bilhete” do Diário XVI, o último.

    Não te sei dizer mais.
    Depois de tantos versos,
    Que te baste o silêncio
    Dum poeta ardente,
    Que sempre, naturalmente,
    Foi além das palavras
    Do amor, amando.
    Que, em cada beijo,
    Selava os lábios que o nomeavam.
    Que aprendeu, a sofrer,
    Que tudo acontecia
    No acontecer.
    Que, até nas horas de evasão, sabia
    Que a verdadeira vida vive-se a viver.

    Beijo
    Maria

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