Aos Domingos
Havia os Domingos de Verão e, os de Inverno.
Tomar é frio no Inverno. Convidava à permanência em casa, à roda da braseira, aos longos e pesados almoços que, meu Pai adorava. Por vezes com amigos ou, em casa de amigos, por vezes, com uma ida ao cinema. Eu e o meu irmão, éramos assíduos frequentadores deste, quando havia filmes de “cow-boys”. No meio de meia dúzia de rapazes, era a única miúda, ainda por cima, com alguma diferença de idade.
Eu adorava, eles, coitados, aturavam-me.
Mas, chegada a Primavera, raro era o Domingo que, ficávamos em casa. De véspera, minha Mãe, preparava o farnel: pastéis de bacalhau, croquetes, rissóis, presunto, pão, fruta, vinho é claro, uma toalha de riscado azul e branco, guardanapos (de pano, não havia de papel) e, no Domingo de manhã, lá íamos nós, felizes e contentes, para mais um belo “Piquenique”. Os destinos eram, geralmente, um de três: ”Marmelais”, quinta de uns amigos, ”Charolinha do Convento” ou, nos dias mais abonados, um táxi, levava-nos ao “Agroal”. Chegados ao destino, a primeira coisa era pôr o vinho e os refrescos, em sítio fresco. Não, não havia arcas térmicas e, não faziam falta. Em Marmelais, havia um poço, fresco, onde, presas por cordas, as garrafas refrescavam. Na Charolinha, havia uma mina de água gelada, que substituía o frigorifico. No Agroal, a água da nascente, gelava bebidas e, os mais afoitos que, cheios de coragem, se lançavam nela. Eu, só gelava os pés, porque já nesse tempo, detestava água fria.
Eram dias, felizes, saudáveis, pouco dispendiosos. Geralmente, éramos muitos. Ao nosso grupo de cinco, juntavam-se mais grupos de amigos. Nós, miúdos, corríamos no meio de árvores, pedras, animais, sem medos, sem avisos de perigos que, aliás, não existiam. Os mais velhos, dormiam, liam os jornais, conversavam, as senhoras faziam crochet, bordavam, coisas lindas que, iriam alindar as suas casas, trocavam receitas.
Quando a tarde caía, era o regresso a casa, longo, muito longo. As nossas pernitas, tinham andado muito, as nossas cabeças, tombavam de sono. Ai, se eu pudesse voltar a esses dias! Se eu pudesse trazer de volta, aqueles que perdi!
E posso. Ainda agora os trouxe. Enquanto escrevi, eles voltaram todos. Os sítios, as pessoas, os dias, a alegria de os ter vivido.
Agora é altura de pagar a conta. Chegou a SAUDADE, algumas lágrimas, a certeza de que tudo isto acabou. Mas vale a pena pagar a conta, destes minutos, em que voltei a ter os que amei, as minhas tranças, abanando ao vento, as vozes das mães que, nos chamavam, para voltar a casa.
Até um dia destes
Olá Maria! Apesar de ser mais tarde, também ia a esses sítios maravilhosos para qualquer criança, lembro-me também de ir para a beira de uma ribeira que passava por baixo dos Pegões e nela colocar as bebidas para refrescar.
O Agroal hoje está muito diferente, do lado de Tomar então está péssimo, antigamente existia uma espécie de “barracas” que servia de dormida e um local onde se comprava frango, agora do lado de cá não há rigorosamente nada.
Boa Noite Maria!
Por vezes, também recordo com nostalgia os nossos “piqueniques” nos pinhais perto de Colares, Cascais, etc.. Até aquela vez que fomos ao Guincho e veio uma onda tão grande, acabámos todos por levar banho e ir a correr atrás das coisas.
As férias em Cascais é das coisas que me deixa mais saudades. Éramos cinco, a família ia completa para férias. Apanhávamos o comboio, com umas malas e fazíamos a festa. Nada de luxos, mas tempos tão felizes. Tinha a minha família paterna (a mais chegada) praticamente toda ali. Agora, quando lá vou, à excepção de alguns, só há “fantasmas”.
Também recordo com saudade uma ida por alguns dias a Tomar. Estivemos no extinto Parque de Campismo de Tomar e fomos com o Avô. Penso que foi há uns 27 anos. Apesar de a minha memória me atraiçoar quanto a essa ida, tenho saudades de “estarmos”. Mais tarde, ainda lá voltámos, mas só quatro, tendo sido uns dias muito bem passados. Ainda fomos ao Agroal e até ao rio Fundeiro.
Para acabar, ainda vou referir aqueles ajuntamentos em casa do Avô e em casa da Tia Bia.
E, felizmente, são muitas mais lembranças que recordo com aquela saudade que se sente quando já não podemos voltar a viver algo semelhante.
Corvo.
A vantagem de quem já viveu muito é que isso já ninguém lhe tira.
Sabes Maria, tenho sempre a sensação que antigamente a miudagem era quase toda feliz. A rua, os campos e os perigos quase não existiam e isso fazia de nós uns descobridores da vida.
Principalmente para os que nasceram na provincia, como é o teu caso e o meu, toda a infância está quase sempre associada a uma nascente, a um regato, a um piquenique, a um bosque.
Há quem não seja tão saudosista como nós mas eu acho que isto tem a ver com o berço em que cada um nasceu. E o meu era não era de oiro, mas fui muito feliz.
Vai contando e se fores a única a carpir as memórias, juntar-me-ei a ti numa qualquer margem do Nabão.
Bj
Luís, amigo:
Lembro-me bem, desse riacho dos Pegões. Também nos serviu de frigorifico, muitas vezes.
A última vez, que passei pelo Agroal, senti uma grande triteza, ao ver como estava diferente. Não sou contra o progresso. Talvez me tivesse custado, ver o meu Agoal diferente, aproveitado para o turismo, mas vê-lo abandonado, sujo, fez-me muito pior.
É sina da nossa terra, mudar para pior. Até quando?
Maria
Corvo, meu filho:
Meu filho, porque te dei à luz e te creei, meu filho, porque sentes e vês, muita coisa, com os mesmos olhos que eu.
Todas as coisas de que falaste, eu recordo com uma saudade infinda. Tu, começaste a saber, o que é SAUDADE, muito cedo.
Sente-a, se te faz feliz. Mas olha também para o futuro. Tens uma vida ainda muito longa, para guardar mais lembranças felizes.
A mim, é que já resta só a saudade e a esperança de te ver a ti, aos teus irmãos e aos teus sobrinhos, felizes.
Beijos, orgulhosos, da tua mãe
Maria
Kim:
É verdade tudo o que dizes. A minha infância, repartida por Tomar e pela Ria de Aveiro, foi cheia de amor, amizade, coisas que foram tão boas, que ainda hoje, lembro.
Sim. A Ria, a minha Ria, é outra saudade boa, que qualquer dia, contarei. A nossa infância era boa. Tinhamos tempo para tudo.
Não temiamos nada. Tens razão em dizer que há sempre um rio, um bosque. Eu tive isso e a Ria, os moliceiros, os pinhais, campos sem fim, que eu corria todos, sem saber o que era medo. É isso e muito mais que, falta aos meninos de agora. Só muito tarde, soube o que era o medo e a desconfiança. Eles, não. Para seu próprio bem, aprendem muito cedo a desconfiar e a ter medo.
E somos nós, que temos de os alertar, para perigos, que não corremos, nem sabiamos que existiam.
Beijo
Maria
Mais uma vez, encontro na tua escrita, uma comunhão de recordações da minha infância, que eu gostaria de descrever tão bem assim, se tivesse jeito…
bjs d’OBicho
Bicho, meu amigo:
Foste tu, em grande parte, que me meteste nisto. Foram os teus escritos, os primeiros que me deram a coragem, de fazer uma coisa de que toda a vida gostei, sem nunca o fazer.
Continuas a ser, o primeiro que leio, todos os dias. Eu não sou melhor que tu em nada. Todos os dias, continuo a aprender contigo, com o Kim. As tuas fotografias e, comentários, dão-me sempre alguma coisa.
Ainda bem que, gostas do que escrevo. Não sabes como me faz bem, ter um comentário teu.
Um beijo amigo da
Maria