Thursday, October 16, 2008

Aos Domingos

Havia os Domingos de Verão e, os de Inverno.

Tomar é frio no Inverno. Convidava à permanência em casa, à roda da braseira, aos longos e pesados almoços que, meu Pai adorava. Por vezes com amigos ou, em casa de amigos, por vezes, com uma ida ao cinema. Eu e o meu irmão, éramos assíduos frequentadores deste, quando havia filmes de “cow-boys”. No meio de meia dúzia de rapazes, era a única miúda, ainda por cima, com alguma diferença de idade.

Eu adorava, eles, coitados, aturavam-me.

Mas, chegada a Primavera, raro era o Domingo que, ficávamos em casa. De véspera, minha Mãe, preparava o farnel: pastéis de bacalhau, croquetes, rissóis, presunto, pão, fruta, vinho é claro, uma toalha de riscado azul e branco, guardanapos (de pano, não havia de papel) e, no Domingo de manhã, lá íamos nós, felizes e contentes, para mais um belo “Piquenique”. Os destinos eram, geralmente, um de três: ”Marmelais”, quinta de uns amigos, ”Charolinha do Convento” ou, nos dias mais abonados, um táxi, levava-nos ao “Agroal”. Chegados ao destino, a primeira coisa era pôr o vinho e os refrescos, em sítio fresco. Não, não havia arcas térmicas e, não faziam falta. Em Marmelais, havia um poço, fresco, onde, presas por cordas, as garrafas refrescavam. Na Charolinha, havia uma mina de água gelada, que substituía o frigorifico. No Agroal, a água da nascente, gelava bebidas e, os mais afoitos que, cheios de coragem, se lançavam nela. Eu, só gelava os pés, porque já nesse tempo, detestava água fria.

Eram dias, felizes, saudáveis, pouco dispendiosos. Geralmente, éramos muitos. Ao nosso grupo de cinco, juntavam-se mais grupos de amigos. Nós, miúdos, corríamos no meio de árvores, pedras, animais, sem medos, sem avisos de perigos que, aliás, não existiam. Os mais velhos, dormiam, liam os jornais, conversavam, as senhoras faziam crochet, bordavam, coisas lindas que, iriam alindar as suas casas, trocavam receitas.

Quando a tarde caía, era o regresso a casa, longo, muito longo. As nossas pernitas, tinham andado muito, as nossas cabeças, tombavam de sono. Ai, se eu pudesse voltar a esses dias! Se eu pudesse trazer de volta, aqueles que perdi!

E posso. Ainda agora os trouxe. Enquanto escrevi, eles voltaram todos. Os sítios, as pessoas, os dias, a alegria de os ter vivido.

Agora é altura de pagar a conta. Chegou a SAUDADE, algumas lágrimas, a certeza de que tudo isto acabou. Mas vale a pena pagar a conta, destes minutos, em que voltei a ter os que amei, as minhas tranças, abanando ao vento, as vozes das mães que, nos chamavam, para voltar a casa.

Até um dia destes          

Posted by Maria in 18:22:56 | Permalink | Comments (8)