Outra vez Açores
Há dias que, o meu coração voa para lá. Hoje, mais uma vez,
“Pico”.
É no Pico, que vive a minha irmã. Foi lá, que nasceu e morreu o meu cunhado. “Um homem das Bandeiras”, como ele se classificava. Um homem que, viveu pouco, mas bem. Culto, não fazia alarde dessa cultura. Esteve na guerra em África, mas não contava o seu papel nela. Penso que, viu muita coisa triste, suja, mas não falava disso. Ajudou muita gente a morrer em paz, ajudou muita gente, a não enlouquecer. A vida dele foi sempre “Amar o próximo mais do que a si próprio”. Bom, como tenho conhecido pouca gente. Puro, mesmo tendo passado por sítios pouco puros.
Amigo, sem nada pedir em troca.
Eu disse que, ia falar do Pico e, falei. Ele, era a imagem do Pico: grande, modesto, amigo.
Tenho saudades dele. Tantas, que não vou dizer mais nada.
Um beijo para a minha irmã. Um ramo de violetas, para ele.
Até um dia destes.
Descansa Maria! Um homem assim, estará certamente no pico do monte mais sublime.
As violetas ficam-lhe bem. São o rosto da paixão.
Um beijo para amenizar a tua saudade!
Este homem, kim, foi padre e deixou de o ser para casar com a minha irmã. Não deixou nunca de ser profundamente crente. Um dia, já muito doente, perguntou-me se o meu marido era crente. Eram muito amigos, mas nunca tinham falado desse assunto. Respondi-lhe que não. A resposta dele foi: “Que importa que ele não acredite em Deus? Deus acredita nele.” Quando ele morreu, escrevi uma coisa que a minha irmã e os filhos, gravaram na pedra da sua sepultura:
Chamou-te Deus, hesitaste.
Chamou-te a vida viveste.
E mais te santificaste
Nos dois filhos que tiveste.
Chamou-te o amor, tu amaste,
Amaste tudo o que viste.
Chamou-te a dor e sofreste.
Chamou-te Deus, e partiste.
È assim que ainda o vejo. Alguém, que aceitava tudo com amor e resignação.
Ainda é lembrado no Pico, como Sr padre Artur, o que não impede que lhe tenham adoptado a mulher e os filhos com carinho e respeito. Se só houvessem homens como ele, o mundo seria diferente.
Maria
Eu entendo Maria! Ele foi a Rei Artur e Camelot, recorda-o ainda, como bom samaritano que foi.
Também eu, um dia quis ser padre. Quiserem os Deuses do Olimpo ou talvez não, que percorresse apenas meio caminho. Apesar de tudo e ciente das falhas, quase diárias,vou tentando exercer o meu sacerdócio.
E lembra-te apenas que lá no Pico mais alto, o Artur está feliz!
Um beijo Maria
Cada vez estou mais convencida que, os padres deviam casar. Tendo uma familia, estariam mais preparados para entender os outros. Os teus comentários são-me sempre gratos. Gosto da forma humana e compreensiva, com que olhas os problemas dos outros.
Eu, um dia, quiz ser assistente social. Os meus pais não me deixaram. Nesse tempo, as filhas tinham que fazer o que os pais queriam. Os meus, como muitos outros, queriam-me casada, com filhos, boa dona de casa. Foi isso que fui, toda a minha vida e acho que o fiz bem. E sou feliz assim. Mas o motivo que me tinha feito pensar a ajudar os outros, continua a existir. Sempre que posso, ajudo. Não o faço pelos outros. Faço-o por mim. Faz-me bem, sentir-me útil, mitigar a dor alheia.
Sei que me entendes, amigo.
Um beijo
Maria