Friday, October 3, 2008

Papéis velhos

Tenho umas três ou quatro caixas, cheias de papéis velhos, de variadas proveniências. Desde cartas de 1800 e troca o passo, escrituras, fotografias de pessoas que, nem conheci e, que ainda por cima estão apagadas, sem cor, sem definição, cartões de visita, bilhetes e… convites para festas familiares e outros. Às vezes, gosto de abrir uma delas e, quase sempre, encontro coisas engraçadas.

Desta vez, encontrei este convite:

É uma delicia. Aqui se vê, como era festejado o aniversário de uma criança de quatro anos.

Só espero, que não sirva de exemplo para nenhum aniversário dos vossos filhos e netos.

O programa era dividido em duas partes. Da primeira, logo a abrir constava “Tanhauser” de Wagner, seguida de “Keiner Valse” de Carrenno, “Absense” de Beethowen, “Preghiere” de Tosti, “Romanza” e ”Bolero” de Dancla, “Scéne de Ballet” de Beriot, “Printemps” e “La rose sauvage” de Shubert, “Minuetto del Bue”, de Haydn, “Trio” de J. Chr. Bach. Para finalizar em beleza, uma menina declamava, uns versos, de sua autoria e finalizava com mais uma valsa, “De fleur en fleur” de E. Gandolpo.

No intervalo, deveria ser servido o chá e os bolinhos de alguma das grandes pastelaria, da Baixa Lisboeta.

Depois, já com os estômagos aconchegadinhos, seguia-se a segunda parte do Concerto. Ora vejamos: “Cavallaria Rusticana” de P.Mascagni, “Gazouillement du Printemps” de Sinding, “Poeme érotique“ de Grieg, ”Soneto nº 24” de Camões  “Alguém” de Gonçalves Crespo e voltava a música: “Le jours s’éteint à l’horizont de pourpre”, “Vien douce mort” e “Reste calme reste en paix”, todos da autoria de Bach. Segui-se  “Minuetto” de Paderswski,  “Romanza” de Svenden, “Andante” do 7º concerto de Beriot, “Nocturno” de Chopin, mais uns versos e, terminava com “Amores de Principe” de E.Eysler.

Já estão a dormir, ou desistiram a meio? Eu fiquei com sono só de escrever. E o ”Joaquimzinho”? Para seu próprio bem espero que tenha adormecido, logo que começou, esta bela surpresa, que tão carinhosamente, lhe preparam.

Eu, se estivesse lá, no fim pediria que, me deixassem dizer uns versos de João de Deus:

 

“Que quem já é pecador,

sofra tormentos, enfim.

Mas as crianças, Senhor,

porque lhes dais tanta dor,

porque padecem assim?”

 

Até um dia destes.

Posted by Maria in 14:24:53
Comments

9 Responses

  1. Kim says:

    Coitado do meu homónimo!
    Naquela época, (as crianças ricas) tinham de ir à ópera, tocar piano e falar francês.
    Este convite é mesmo uma delicis!
    Beijinhos Maria

  2. Anonymous says:

    Este convite teria sido feito para a tua avó, ou para a tua tia-avó? (ambas se chamavam Boniphácia).

    Coitadinho do Joaquinzinho!

    Não haviam de ser irrequietas as crianças de hoje!

    Beijos de um Bisneto ou sobrinho-bisneto da convidada.

  3. Anonymous says:

    Era dirigido à minha Bisavó e minha tia Avó, que, como sabes, eram a mesma pessoa.
    Se fosse hoje, o dito Joaquimzinho, já andava no psicólogo de certeza.
    Beijo
    Maria

  4. Anonymous says:

    Kim:
    Já naquele tempo, havia “pobres meninos ricos”.
    Dou graças a Deus, porque quando eu nasci, já a familia tinha dado cabo da massa. Mesmo assim, nos aniversários, ainda se cantava e se tinham que recitar, poemas intermináveis, para grande jubilo dos convidados. Eu, que tinha boa memória, apanhava com enormes pastelões, para declamar.
    Hoje tudo é diferente. Uma ida à pizzaria mais próxima, um filme e, uns jogos de computador, mais o inevitável bolinho e a chata música do “Parabéns a você, para completar o dia, divertem os putos e, dão muito menos trabalho.
    Beijinho
    Maria

  5. Kim says:

    É verdade Maria!
    E o dinheiro, apesar de ajudar muito, não faz a felicidade de ninguém.
    Por acaso eu acho que naquele tempo era tudo muito chato para a miudagem.
    Felizmente que eu era pobre e muito feliz.

  6. Anonymous says:

    Kim:
    Realmente, o dinheiro nâo chega para fazer a felicidade de ninguém, mas ajuda ter o suficiente. Além de que, há pessoas que tendo pouco, se encravam até ao pescoço, para fazerem grandes festas de casamento,(que duram cada vez menos!) e baptizados, E lá chateiam mais uma vez, as pobres das crianças, que sendo os festejados, passam um dia chatérrimo, a ver os graúdos empanzinarem-se com montes de comida e bebida. Detesto tais festas. Além de juntarem pessoas que, mal se conhecem, estraga-se comida que, daria para matar a fome a alguns que a têem.
    Foi pecado que nunca cometi. Tanto quando me casei, como nos baptizados dos meus três filhos, houve pequenas festinhas em casa e só com a família mais próxima. Sempre era mais barato e estavam as pessoas que mais importavam. A comida sempre chegou e nunca fiz dívidas. Agora, casamentos e baptizados, já não são sacramentos, são verdadeiras maratonas de “A ver quem come mais”. Senta-se tudo à mesa, à uma da tarde e acaba-se às nove da noite. E as crianças, choram, berram, não se divertem nada.
    Enfim, a cada tempo seu uso. Já não sei o que é pior.
    Vivemos num mundo, em que as pessoas, não vivem umas com as outras, vivem contra as outras. Se a amiga, convida 30 pessoas, tem que se convidar, pelo menos, 35.
    Os outros, chateavam com os serões musicais. Agora, é o que se vê: comida, música Pimba, barulho e comida, muita comida, parte da qual vai para o lixo.
    E há tanta gente com fome! Tanta criança com fome!
    Eu, sinceramente, já não sei o que gosto menos. Se a estafa de um dia inteiro a ver comer e estragar, se a lembrança, de que aquela mesma hora, “alguém”, está à procura de restos de comida, num contentor de lixo.
    Estou amarga, hoje. É a minha disposição normal, depois das ditas festas. Vou, porque não quero magoar quem me convida com amizade, mas não gosto.
    Foi o caso ontem.
    Maria

  7. Anonymous says:

    Era uma coisa CARA, antigamente a CULTURA - era PRIVILÉGIO de alguns.
    Agora, felizmente, já não é assim. Hoje é uma coisa perfeitamanete acessível a todos; é fácil, é vulgar, tanto que até ninguém liga, ninguém quer saber muito - ser culto? Não é preciso fazer esforço, ESTÁ TUDO À nossa disposição NA INTERNET, 24 horas por dia.

  8. Anonymous says:

    Quem disse fui Eu,
    OBicho, e adianto que a minha cultura é q.b.p. para “chatear o pessoal” com os meus “escritos”, mais vezes do que devia!

  9. Anonymous says:

    bicho,
    Não sejas modesto. A tua cultura é até muito vasta. Quanto à “cultura da Internet”, é um pouco aquilo que dantes era a “cultura da Reader Digest”. Às vezes, ficamos a saber menos ainda.
    Eu recorro muito mais aos livros e, passe a vaidade, à minha memória e aquilo que aprendi com o meu Pai. A ele e à minha mãe, devo o gosto pela leitura. Além disso, tenho espírito de coca-bichnhos, que me leva a procurar até ao limite, alguma coisa que, me prenda a atenção.
    Quando me perguntam, o quero pelos anos ou Natal, a resposta é sempre a mesma: Livros. Eu não leio, devoro e memorizo com facilidade o conteúdo dos livros. Alguns, chego a memorizá-los. São um dos meus amores e, como tal, guardo-os, limpo-os e tenho a ter ciúmes deles. Nada me custa mais, do que emprestar um livro. Quer dizer, se me pedissem o meu Chefe emprestado, seria pior. Mas so ele e os livros, não sou capaz de partilhar. São meus, só meus.
    Maria

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