Um dia negro
Toda a gente, penso eu, sabe que, faz hoje 20 que o “Coração Cultural” de Lisboa ardeu. O Chiado de Eça, de Ramalho, de Camilo e de tantos outros, ardia sem remédio. O Chiado das lojas, das violeteiras de “Tranças Pretas”, das meninas que subiam e desciam as ruas “À procura de marido”, como dizia uma velha canção, desaparecia num mar de fogo. O Chiado do “Grandela”, dos “Grandes Armazéns do Chiado”, do “Eduardo Martins”, das grandes livrarias, só existiria, daí em diante, na memória dos que o conheciam e em fotos e filmes antigos. Nunca mais iria à “Ferrari” beber o chá das 5.
Nesse dia, tinha saído cedo de casa para ir às compras. Num supermercado, ouvi a noticia. Fiquei mais triste, do que já estava.
Nesse mesmo dia, ia o meu filho para Mafra. Saíra de casa cedo, para não o ver partir. Era a vontade dele e a minha. Não aguentaria ver, o meu menino, sair debaixo das minhas asas protectoras. Não sabia sequer, quando ia voltar a vê-lo ou, saber dele. Há 20 anos, não havia telemóveis.
Sentei-me em frente da televisão, levando o dia todo a chorar e, a pensar nele. À tarde, informaram que, estavam a caminho de Lisboa, militares de Mafra para auxiliar os bombeiros. Foi o fim.
Nem me passou pela ideia que, os mandões da tropa, não iam com certeza, mandar maçaricos, para o meio daquele inferno. Por mais que tentassem convencer-me, eu já só via o meu filho, no meio das chamas.
A cinza que se espalhava sobre Lisboa e arredores, pesava e ardia na minha alma.
O fogo acabou, fez-se o rescaldo, contabilizaram-se os estragos.
Eu, não dormi até sexta-feira. Não sabia nada do meu filho. Nessa tarde, ele chegou. Diferente. Do meu lindo e alegre filho, restava uma sombra triste, acabrunhada, com o cabelo rapado, um saco às costas. Tive que fazer um esforço enorme, para não desatar a chorar quando o vi. Aquele não era o meu menino, sempre brincalhão, sempre bem disposto. Era um homem triste, amargurado, cansado. Quando ele foi tomar banho, telefonei a um amigo dele e, pedi-lhe que o viesse buscar para ir a qualquer lado. Lembras-te Rui? Obrigada pelo que fizeste nesse dia pelo João e por mim. Nunca o vou esquecer. Tu e o Carlos, foram a minha tábua de salvação. Quando fui pôr a roupa dele a lavar, as meias tinham pedaços de pele agarrados. Felizmente, ele não viu as lágrimas que me correram, nem ouviu as palavras de revolta que me saíram da boca, entre gemidos e gritos. Quem tinha dado direito àquelas cavalgaduras, para tratarem daquela forma, o meu filho? Não teriam filhos também? Já nem guerra havia, para quê tanta dureza, tanta brutalidade?
Já lá vão tantos anos! O meu filho recuperou a alegria, a beleza, seguiu a sua vida. Mas eu sei que, esses dias o marcaram, como me marcaram a mim. Tanto, que o dia negro do Chiado, é para mim duplamente negro. Coisas de mãe…
O “Coração” de Lisboa e dos Lisboetas, voltou a bater e o meu também.
Até um dia destes.
