Monday, August 25, 2008

Um dia negro

Toda a gente, penso eu, sabe que, faz hoje 20 que o “Coração Cultural” de Lisboa ardeu. O Chiado de Eça, de Ramalho, de Camilo e de tantos outros, ardia sem remédio. O Chiado das lojas, das violeteiras de “Tranças Pretas”, das meninas que subiam e desciam as ruas “À procura de marido”, como dizia uma velha canção, desaparecia num mar de fogo. O Chiado do “Grandela”, dos “Grandes Armazéns do Chiado”, do “Eduardo Martins”, das grandes livrarias, só existiria, daí em diante, na memória dos que o conheciam e em fotos e filmes antigos. Nunca mais iria à “Ferrari” beber o chá das 5.

Nesse dia, tinha saído cedo de casa para ir às compras. Num supermercado, ouvi a noticia. Fiquei mais triste, do que já estava.

Nesse mesmo dia, ia o meu filho para Mafra. Saíra de casa cedo, para não o ver partir. Era a vontade dele e a minha. Não aguentaria ver, o meu menino, sair debaixo das minhas asas protectoras. Não sabia sequer, quando ia voltar a vê-lo ou, saber dele. Há 20 anos, não havia telemóveis.

Sentei-me em frente da televisão, levando o dia todo a chorar e, a pensar nele. À tarde, informaram que, estavam a caminho de Lisboa, militares de Mafra para auxiliar os bombeiros. Foi o fim.

Nem me passou pela ideia que, os mandões da tropa, não iam com certeza, mandar maçaricos, para o meio daquele inferno. Por mais que tentassem convencer-me, eu já só via o meu filho, no meio das chamas.

A cinza que se espalhava sobre Lisboa e arredores, pesava e ardia na minha alma.

O fogo acabou, fez-se o rescaldo, contabilizaram-se os estragos.

Eu, não dormi até sexta-feira. Não sabia nada do meu filho. Nessa tarde, ele chegou. Diferente. Do meu lindo e alegre filho, restava uma sombra triste, acabrunhada, com o cabelo rapado, um saco às costas. Tive que fazer um esforço enorme, para não desatar a chorar quando o vi. Aquele não era o meu menino, sempre brincalhão, sempre bem disposto. Era um homem triste, amargurado, cansado. Quando ele foi tomar banho, telefonei a um amigo dele e, pedi-lhe que o viesse buscar para ir a qualquer lado. Lembras-te Rui? Obrigada pelo que fizeste nesse dia pelo João e por mim. Nunca o vou esquecer. Tu e o Carlos, foram a minha tábua de salvação. Quando fui pôr a roupa dele a lavar, as meias tinham pedaços de pele agarrados. Felizmente, ele não viu as lágrimas  que me correram, nem ouviu as palavras de revolta que me saíram da boca, entre gemidos e gritos. Quem tinha dado direito àquelas cavalgaduras, para tratarem daquela forma, o meu filho? Não teriam filhos também? Já nem guerra havia, para quê tanta dureza, tanta brutalidade?

Já lá vão tantos anos! O meu filho recuperou a alegria, a beleza, seguiu a sua vida. Mas eu sei que, esses dias o marcaram, como me marcaram a mim. Tanto, que o dia negro do Chiado, é para mim duplamente negro. Coisas de mãe…

O “Coração” de Lisboa e dos Lisboetas, voltou a bater e o meu também.

Até um dia destes.

  

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Saturday, August 23, 2008

Os novos Lusíadas

As armas e os ladrões assinalados

Que nesta pobre terra lusitana,

Matam e roubam sem serem apanhados,

E sem que a policia os meta em cana,

Assaltando novos e velhos que espancados,

Com frieza que nada tem de humana.

Por todo este país já espalharam

O terror, que a todos provocaram.

 

Pobres destas gentes temerosas

Que quando vão à rua vão pensando

Se será nesse dia que medrosas

Irão ficar sem nada, inda apanhando,

Um par de tiros e as mais temerosas,

Pensarão que a morte os está esperando.

Se na esquina da rua ou noutra parte,

Não os espera navalha ou bacamarte.

 

Até quando será? Ainda este ano?

Onde está a paz que prometeram?

Quem vai fazer o esforço sobre-humano,

De nos dar a liberdade que não deram?

É este o peito ilustre lusitano,

Que Camões e mais alguns enalteceram?

Olhem que quem assobia, pouco canta,

E a nós, vossa conversa não encanta.

 

E vós, senhores meus, que haveis criado,

Policia mal armado, em que a gente,

Não sente confiança e, se chamado,

Só vem quando a poeira está assente.

Vede se terminais de vez nosso cuidado,

E,  dai-nos por perto, um policia bem presente.

E pensai bem, senhores, vossa morada,

Não está livre de também ser assaltada.

 

Camões, meu poeta, perdoa-me. Não é falta de respeito, é amor.

Amor por ti, por este país, que um dia tu cantaste, por este povo farto de sofrer.

Estou a tentar brincar, mas é para não me desfazer em lágrimas.

Servi-me do teu sublime poema, unicamente para chamar a atenção.

Quanto a nós, até um dia deste

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Thursday, August 21, 2008

Ícaro


                A queda de Ícaro. Marc Chagall

Quem foi que nunca sonhou que tinha asas?
Quem nunca quis voar mesmo sem elas?

Quem nunca desejou um punhado de estrelas

A iluminar o escuro em nossas casas?

Quem nunca quis ser ave e voar liberta

Pelo azul do céu em busca de aventura?

Quem nunca foi pássaro e perante a porta aberta

Não quis fugir  para  a rua, mesmo em noite escura?

Quem foi que nunca sonhou voar tão alto

Que mergulhasse no azul fundo do céu?

Quem não pensou depois, em sobressalto

Que foi por querer asas, que Ícaro morreu?

Até um dia destes.

Posted by Maria at 09:18:24 | Permalink | Comments (4)

Wednesday, August 20, 2008

Girassol

Eu não queria só um Girassol.

Um rio, um campo, a sombra de um salgueiro,

Um odor a pão quente, terra recém lavrada,

Comer uvas, arrancadas da ramada,

Sentir estalar a rama do pinheiro,

Ver abrir as pinhas, com o calor do sol.

Ver a montanha verde, respirar esse ar,

Que só o cimo da montanha tem.

Correr pelos prados e neles me espojar,

Como fazia em pequena, há tantos anos!

Esquecer toda a mentira, não ver tantos enganos.

Voltar a ter alma que tinha, era criança,

E tudo era azul e verde esperança.

E aí, sim. Talvez um amarelo girassol,

Pudesse, quem sabe, mudar a chuva em sol,

Fazer o meu dia, um dia de bonança.

 

 

Roubei a ideia ao Kim, a imagem não sei a quem.

As palavras são minhas.

Peço perdão ao Kim, ao dono da imagem e a quem tiver paciência para me ler e aturar mais uma vez, pela minha mania de que faço alguma coisa de jeito.

Até um dia destes.

Posted by Maria at 10:02:51 | Permalink | Comments (3)

Monday, August 18, 2008

Ir à Terra

Nesta altura do ano, é frequente ouvir dizer aos habitantes de Lisboa e arredores: “Vou passar uns dias à terra”.  Alguns, que eu sei que nasceram na “Alfredo da Costa” ou em “Santa Maria”, dizem: “Vou à terra”. Ora, quanto a mim, a terra deles é Lisboa.
Quanto a eles, a “terra”, é o sitio de onde são naturais os pais ou os avós, os sogros etc.
Vendo a coisa pelo ponto de vista deles, eu, nascida e criada em Tomar, teria de dizer: “Vou à terra”, quando vou às Caldas, a Óbidos, a Vizela, a Colares, a Águeda, até a uma localidade pequena na Galiza, de onde terá vindo parte da família de meu Pai.
Teria ainda, de o dizer, quando fosse a Cascais, Azóia, Tondela e Tábua, de onde são originários os diversos ramos familiares de meu marido. Mas que grande confusão! Por acaso, nunca digo “vou à terra”. Quando vou a Tomar, digo: “Vou à minha terra”. Apenas uma palavra faz a diferença, “minha”. É quase como dizer: “minha mãe”.
É lá, que está o começo da minha vida. Foi lá, que vim ao mundo, num dia frio de Dezembro, com a “Nabantina” a tocar em frente da minha casa. Foi lá, que mãos ternas e não as mãos de um médico ou de uma enfermeira, me “apararam”, me embalaram os primeiros vagidos. É lá, a “minha terra”. Fora dela, onde quer que esteja, sinto-me desenraizada. Por isso, me faz confusão ouvir alguns Lisboetas dizerem: “Vou à terra”, quando na terra, estão eles.
Minha linda Lisboa, minha terra de adopção, como és mal amada, mal conhecida, por parte dos teu filhos!

Até um dia destes.

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Friday, August 15, 2008

Lua de Mel

Meus Pais casaram num dia 15 de Agosto, de há muitos anos.
Realizada a cerimónia religiosa na antiga Igrejinha de S. Jorge de Arroios, onde hoje é um enorme edifício que, mais parece um armazém de secos e molhados, do que uma igreja, almoçaram com os padrinhos e parentes chegados e, tomaram o comboio para Tomar, onde meu Pai já vivia e trabalhava. Chegados a Chão de Maçãs (hoje chamada Fátima), tinham à espera uma pequena charrette, que os transportaria a Tomar por uma estreita e escura estrada entre montes e vales. Era uma viajem curta, pouco mais de 10 Quilómetros. Para Ela, nova, apaixonada, foi como se fosse uma viajem a Paris (seu sonho de menina nunca realizado). A Lua, uma enorme Lua de Agosto, iluminava a estrada, o arvoredo, uma ou outra casa, branca e pequena e sobretudo, o rosto daquele que Ela amava e esperara tanto tempo. Chegados a Tomar e à pequenina casa que ele preparara para a sua noiva querida, esperava-a o jantar, posto na mesa por alguém amigo.
Foi Ela que me contou esta história, dou-lhe a palavra para terminar: “Filha, eu não tive Lua de Mel. Tive Lua Cheia de Agosto e, fui muito feliz”.
Quando estive em Paris, senti a sensação de a ter comigo, como se através dos meus olhos, Ela pudesse, enfim, ter a sua Lua de Mel.
Mas para quê? Afinal, Ela tinha tido mais. O homem que amava, 4 filhos dele e, a Lua Cheia, daquela noite que a fez tão feliz.
Lá, onde quer que estejam, quero dizer o costume: “parabéns meus Pais e, obrigada por terem sido meus Pais. Um beijo do tamanho da Lua Cheia, dessa noite.
Até um dia destes. 
  

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Tuesday, August 12, 2008

Verei “Casablanca” amanhã

Se tivesse, de repente, que nomear “O livro”, “O filme” e “A música”, da minha vida, seria fácil: “Os Maias”, “Casablanca”, “As time goes by”. Pouco original, eu sei.

Ontem ouvi, vezes sem conta, “As time goes by”, interpretado por Billie Holiday. Não foi a primeira vez que a ouvi, mas ontem mexeu tanto comigo que, resolvi ver “Casablanca”, hoje. Claro que, também não era a primeira vez. Nem a segunda. Já não sei, quantas foram as vezes que vi o filme. Sei, que espero sempre por um fim diferente.

Hoje, já tinha o DVD na mão, quando passei pela R.T.P. Memória. Ia começar um filme que eu nunca tinha visto, mas de que tinha ouvido falar muito, aos meus pais: “Os Contos de Hoffman”. Conhecia a música, sobretudo a “Barcarola”, sabia que era uma ópera de Jacques Offenbach, sobre uma obra do escritor alemão E.T. Hoffman, curiosamente também autor da história do bailado “Quebra Nozes” de Tchaikovski. Viveu no início do séc. XXIX e, era conhecido pelos seus romances fantasistas, por vezes até assustadores.

Perante tudo isto, fiquei com o “Casablanca” nas mãos, a ver o filme. Dirigido por Michael Powell em 1951, conta com a participação de bailarinas conhecidas, (Ludmilla Tacherina), a actriz Moira Shearer, cantores e cantoras. Tem de tudo. Fantasia, horror, romance, música, bailado, cenários lindos. Sinceramente, gostei. Não para ver muitas vezes, mas é diferente.

Perdoa-me Bogart. Um dia destes, de certeza, vou voltar a “Casablanca” e ao teu café, onde chorarei quando ouvir “A Marselhesa”, cantada nas barbas dos alemães. Irei ouvir a Ingrid pedir: “Play it, Sam. Play As time goes by”. E tu dirás: “We have always Paris”.

Agora, vou ouvir de novo, “As time goes by” pela minha “Lady Day”.

Até um dia destes.

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Friday, August 8, 2008

Uma noite em Roma

Éramos quatro. Vínhamos com os olhos cheios de beleza, de Milão, Veneza, Pádua, Assis, Pisa, Siena e Florença. Florença, meu amor, Florença, onde vou voltar. Chegados a Roma, foi um corrupio, para conseguirmos ver o máximo possível. Uma noite, depois de jantarmos, não sei o quê, fomos à “Piazza di Spagna”, subimos as escadinhas que vão dar à Igreja “Trinità dei Monti”, sentámo-nos na esplanada de um pequeno bar, pedimos quatro “Limoncello” e, cada um ficou a sonhar os seus sonhos, enquanto conversávamos.  Eu e o meu irmão lembrávamos o filme “Férias em Roma” com Audrey Hepburn. A minha cunhada, pensava em toda a arte que  Roma encerra. O meu marido, com ar sonhador, esperava ver a Laetitia Casta, descer as escadas, bela e sedutora, sentar-se à mesa com ele e, em voz doce, pedir: “Un  Limoncello, per favor”. Não teve sorte, coitado. Tirando eu e a minha cunhada, os únicos seres do sexo feminino, eram umas inglesas já entradas, tão bem bebidas que, uma delas, teve direito a ambulância e tudo.
Nós, bebemos mais um copinho daquele Amalfitano néctar e dispusemo-nos a voltar para o hotel. Fomos direitos ao metro mais próximo e, vimos um cartaz a anunciar “Greve”. Fartámo-nos de andar, até aparecer um bem aventurado táxi, que nos levou ao descanço merecido. No dia seguinte, havia mais Roma para ver.
Não posso deixar de mandar um beijo especial, para a outra mulher, deste grupo. Ela sabe porquê.

Até um dia destes.

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Thursday, August 7, 2008

Pico - Ilha de sonho

Todas as ilhas dos Açores são lindas ( as que conheço).
O Pico é diferente. Aquela montanha enorme, bela, cheia de mistério, torna a ilha, especial. As vinhas, plantadas no meio da lava,  dão um vinho tão sublime que, o czar de todas as Rússias, o tornou o seu vinho de eleição, a calma, a simpatia das pessoas, tudo a torna peculiar. Mas, para mim, ela é diferente, porque lá nasceu o meu cunhado, lá vive a minha irmã e um dos meus sobrinhos. Parte de mim, está no Pico.
E, no Pico há as “perfolhas”, pequeno passarinho. O meu Artur, chamava assim, à filha. “Minha perfolha, minha perfolhinha”.
Ora, a perfolhinha faz hoje anos. Saudades, para o meu cunhado, um beijo, para a minha irmã. Parabéns, perfolhinha, um beijo da tia.
Até um dia destes.

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Tuesday, August 5, 2008

Quando nasceste…

Parece que foi ontem e, já passaram 48 anos.
Havia vários meses que, a minha Mãe estava internada numa casa de saúde, entre a vida e a morte.
Assistira, em Outubro, ao casamento do filho mais velho e único rapaz, e em Janeiro fora para uma casa de saúde, para ser operada. Eu estive com Ela quase o tempo todo. Foi um processo longo, doloroso, sem se saber (nem os médicos), como ia terminar.
Em fins de Julho, em desespero de causa, resolveram operá-la de novo. Ela, sofria com dores, com medo de morrer, de deixar o meu Pai, o filho, as filhas, mas e sobretudo, com uma mágoa profunda por não conhecer o neto que ia nascer. O dia 5 de Agosto, era um dia triste para Ela. Fazia anos (16) que perdera a 1ª filha menina.
Muito crente, pedia a Deus, que o menino não nascesse nesse dia.
Estávamos as duas sozinhas no Porto, no hospital. O meu irmão vivia já em Lisboa, a minha irmã tinha sido exportada para cá, para não assistir a toda a tragédia que passávamos (era muito novinha ainda), o meu Pai, aproveitou as melhoras dela, para vir ver a Mãe e os filhos.
Logo de manhã, o médico disse-me que, o perigo imediato tinha passado. Ela ficou contente, mas a lembrança da filha morta, não a largava. No entanto, os milagres ainda não tinham acabado. Um telefonema do meu Pai, informou-nos do teu nascimento, João.
A tua Avó, parecia ter ressuscitado. O dia triste, tornou-se um dia de festa. O facto de teres nascido no dia em que fazia anos que a filha morrera, era bom, porque ela, a tia, iria ser o teu “Anjo da Guarda”, Ela, já tinha esperança de ver o neto tão desejado e, já tão querido.
Até aqui, só tenho falado na Avó. Agora, falo de mim. Nesse dia, vi tudo azul. O céu, a vida. O instinto maternal acordou. Tudo era bonito, tudo era bom. Eu era tia. Eu tinha um sobrinho. Amei-te logo. Continuo a amar-te. Continuas a ter um lugar enorme, no meu coração e no meu pensamento. Sofro quando sofres, sou feliz quando és feliz.
Hoje não vou dizer-te, como de costume: “Parabéns, sobrinho”.
Digo-te: “Estás feliz, meu menino?” Se estás, eu também fico.
Não vou dizer mais nada. Não saberia.
Um beijo muito amigo.
Até um dia destes.
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