Wednesday, July 30, 2008

Afinal, há coincidências

Anteontem, fui ao cemitério de Cascais, deixar umas flores aos meus sogros. Não sei como, ao passar ao pé de uma campa, deparou-se-me uma fotografia, que me fez estremecer. Vi o nome e, tive a certeza de que era uma amiga, de quem não sabia há anos.
Tivemos pouco tempo de intimidade, mas esse tempo bastou, para que nos tornássemos amigas. Depois, a vida separou-nos. Nunca mais soube dela, embora por vezes a recordasse com saudade.
Fui encontrá-la, ali. Fiquei abalada, chorei, o tempo e a distância não tinham acabado com aquela amizade.
Ontem, ao arrumar uns papéis, fui encontrar um “Recado” escrito em 2001, para outro amigo morto. Este, era amigo de infância, daqueles com quem demos os primeiros passos. Também deste, a vida me afastou. Quando soube da sua morte, novo ainda, chorei o amigo, a amizade perdida, a infância longínqua.
O tal “Recado”, é um pouco para estes dois e, para outros que, já partiram.
Não há coincidências? Então, que mistério me fez encontrar este papel, dentro de uma bolsa que não uso há anos?

Recado
 
Um amigo morto, é uma coisa estranha.
É uma dor diferente.
É quase como a gente
Sentir que morre um pouco.
São lembranças de infância sem partilha,
São frases que mais ninguém recorda,
Momentos que, não mais serão lembrados,
Abraços que nunca se darão,
Locais, pedaços, da nossa vida antiga
Que partem para sempre….
E, nem sequer soubeste, como era tua amiga.
 
Para a Ana e o A.C. com muitas saudades.
 
Até um dia destes.
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Monday, July 28, 2008

Dois dias que mudaram o meu Mundo

Neste dia, em 1913, nasceu um menino que, mais tarde foi meu sogro. Era, quando o conheci,  um belo homem, um dos mais bonitos que me lembro. Elegante, sério, bom e, muito meu amigo.
Havia entre nós, uma grande cumplicidade. Teve que começar a trabalhar muito cedo, o que não o impediu de estudar, ler, aprender muito, na escola que é a vida. Era uma pessoa de poucas falas, mas comigo, falava. Foi um Pai, às vezes pouco presente, mas que tentou dar aos dois filhos, tudo o que não tinha tido. Gostei, (gosto) muito dele.
Ele e a minha sogra, conheceram-se desde sempre. Cascais era uma terra pequena, nesse tempo. Namoraram cerca de 7 anos, no fim dos quais, casaram.
Pouco tempo depois de fazerem as “Bodas de Ouro”, ele morreu.
Ela, continuou a viver, sempre ocupada, sempre activa, ainda conheceu os dois bisnetos. Trabalhou quase até ao fim.
Um dia, foi direita ao hospital, sozinha, (sempre a preocupação de não dar trabalho). Ficou lá, pouco mais de um mês. Por fim, no mesmo dia em que o marido faria anos, como se ele a chamasse, foi ter com ele. Foi duro para todos. Aquela mulher que, sempre víramos, forte, activa, fazendo tudo, por todos, cansou-se e, resolveu ir descansar. Faz hoje 7 anos que partiu. Sem uma queixa, sem sequer se despedir.
Tenho saudades, muitas, dos dois. Foram os meus segundos Pais.
Daqui, deste meu cantinho, quero só mandar-lhes um beijo, daquela que entrou como um furacão nas vossas vidas, para depois ser a filha, que amaram e vos amou muito.
Até um dia destes.

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Saturday, July 26, 2008

Lobo Antunes, Prémio Camões

Com a possível “Pompa e Circunstância”, foi ontem entregue a António Lobo Antunes, o “Prémio Camões”.
Porquê possível? Tudo estava certo. Os vetustos claustros dos Jerónimos, os senhores presidentes de Portugal e do Brasil, vestidos a preceito, um prémio mais que merecido e, um escritor, igual a ele próprio, sem gravata, de colarinho aberto, cabelo despenteado, ar de menino tímido que, vai receber o prémio escolar, por fazer bonitas redacções. Depois, quando fala, vê-se que ele tem a perfeita noção do seu valor como escritor, que sabe quem é, que não sofre de falsas modéstias.
Tenho lido muita coisa dele, admiro-o, sobretudo quando se mostra mais frágil, mais sensível. Sei, que o facto de ontem não usar gravata, é a prova de coerência que já esperava dele. Ele, que tem coragem para dizer que, não sabe trabalhar com um computador, que não gosta da máquina de escrever, que usa para o seu ofício de escritor, apenas e só, canetas. Ele, que escreve, rescreve, vezes sem conta, um capitulo de cada livro, até lhe parecer que é aquilo que queria, não se ia dar ao trabalho de ser diferente, ontem. Foi “ele”, mais uma vez. Recebeu o prémio do seu trabalho, sem orgulho balofo, nem falsa modéstia.
É assim que eu vejo e admiro, Lobo Antunes. Fiquei feliz, por o Prémio Camões, lhe ter sido atribuído.  Agradeço-lhe a ele, as muitas horas de leitura que me tem proporcionado, o prazer que me dá lê-lo e até, a angústia que por vezes me provoca.
Ouvi agora o CD do Vitorino, com versos de Lobo Antunes. Gostei.
Quero-o para mim. Para ouvir num dos poucos momentos em que não me apetece ler, mas tenho sede de um bom poema.
Até um dia destes.
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Friday, July 25, 2008

Adeus Fernanda Batista

Não vou fazer-lhe a Biografia. Outros mais sabedores da sua vida e carreira, se encarregarão de o fazer.

Quero apenas, lembrar uma das minhas fadistas queridas, daquelas que já cantavam quando eu nasci, que me embalaram o sono e, mais tarde o sonho.
Decorava as letras e as músicas dela, cantarolava-as e, sobretudo, ouvia-as, na voz linda da minha Mãe.
Mais tarde, já adolescente, quantas vezes cantei o “Fado da Carta”, com as lágrimas a correr pela cara abaixo, depois de mais uma desilusão amorosa daquelas que todas as adolescentes teem ou, tinham.
Hoje, ao ver a gravação da última vez que cantou este fado, na SIC,
voltei a chorar cantando baixinho com ela.
A Fernandinha, como lhe chamavam os amigos, morreu. Vi lágrimas em muitos olhos jovens.
Eu, só posso dizer: “Adeus Fernanda, recebe um beijo, de alguém que, sem tu a conheceres, te admirou como artista e como pessoa e, gosta muito de ti”.
Até um dia destes.    

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Tuesday, July 22, 2008

Antigamente

O dia 22 de Julho, era o dia grande da minha família. Era o aniversário da minha Avó. Nesse dia, o rés-do-chão onde morava em Arroios, enchia-se de gente. Estivessem onde estivessem, filhos, netos, sobrinhos, primos, os dois irmãos que lhe restavam, duas amigas, já velhinhas, um mar de gente, que fosse dia de trabalho ou não, arranjava umas horas, para ir prestar vassalagem  à sua decana. Ela, recebia esse preito, como coisa que lhe era devida, sem grandes agradecimentos, embora com alegria.
O facto de andarmos todos aos encontrões uns aos outros, a algazarra, nada nos incomodava.
Os desavindos, faziam as pazes ou, ignoravam-se, civilizadamente.
Nós, os miúdos, fazíamos do jardim o nosso reduto. Era pequeno, o jardim, mas cheio de brincos de princesa, algumas rosas e plantas verdes. Era Ela que o tratava. Tínhamos de ter cuidado para não lho estragar. Havia comes e bebes, conversas postas em dia.
Ela, conservava-se no seu cantinho habitual, recebendo as visitas, conversando com todos, velhos e novos, miúdos e graúdos, sempre com o mesmo ar de senhora de outros tempos.
Eram tempos felizes, esses. A ideia de família, era muito mais alargada do que é hoje. O mundo mudou, as pessoas mudaram.
Se a minha Avó visse, algumas coisas, hoje normais, morreria de pasmo.
Tenho saudades da minha Avó. Amanhã, não vou beijar-lhe a mão e dizer: “A benção minha Avó”. Mas vou pensar nela.
Até um dia destes.
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Monday, July 21, 2008

Um pequeno passo…

Foi há 39 anos, já!
Deitados os meus filhos, eu e o meu marido, ficamos à espera de ver o homem chegar à Lua.
Tínhamos, nesse tempo, uma velha televisão que, trabalhava a murro, fazia riscos, deixava fugir a imagem e, lá muito de vez em quando, deixava ver uma imagem baça, apenas perceptível.
Não tínhamos sofás, por isso, sentamo-nos na cama, com uma garrafa de Porto das mais baratas, dois pacotes de bolacha Maria, e esperámos. Esperámos a noite toda, sem dormir, beberricando, depenicando bolachas. Foi longa a noite.
A Apollo 11, saíra da terra no dia 16, levando na cápsula Eagle, três
Homens: Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins.

Na madrugada de 20 de Julho de 1969, alunou, enfim. Mas os astronautas, só poderiam sair 5 horas depois. Continuámos à espera, não 5, mas 6h-30m, que a porta abrisse e, aparecesse o 1º:

Neil Armstrong. Desceu vagarosamente a escada, sondou com a ponta da bota o solo, deu um salto enorme e, creio que foi então, que pela 1ª vez, se ouviu falar, na Lua. Ele disse: “Este é um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a Humanidade”.
Seria? Hoje não sei. Mas naquela madrugada, acreditei que sim.
A garrafa estava vazia, as bolachas, tinham acabado, mas o nosso entusiasmo era enorme. Ainda por cima, o televisor, até se tinha portado bem.
Como fomos felizes nessa noite! Com uma casa sem móveis, 2 filhos pequeninos, 1 garrafa de Porto e 2 pacotes de bolachas.
Era tão fácil ser feliz, naquele tempo!
Até amanhã. 
 

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Sunday, July 20, 2008

Concerto para computador a quatro mãos

“Tenho o hábito de, desde há alguns anos, ir passar umas pequenas temporadas a Tomar. Sempre que lá vou, lembro-me que aí viveu uma família feliz, cuja felicidade poderia ter continuado, se a partida para uma terra distante não tivesse acontecido.
Quando aqui venho, procuro gozar da beleza e da calma da Cidade. Porém, aproveito também para tentar encontrar uns vestígios dessa família – como se me não bastasse o facto de metade do sangue, que me corre nas veias, vir daí.
Vi, como costumo ver, a parte de fora da casa onde a minha mãe nasceu e viveu alguns anos com os pais, irmão e irmã, e onde nasceu uma outra irmã que morrera alguns meses antes de a minha mãe vir a este mundo.
Trouxe comigo (para Tomar) algo que esteve muito presente nessa casa e preencheu muitas noites dessa família. Este pequeno rádio foi comprado em Tomar pelo meu avô, em 1951. Assim, ocupa-me também as noites que estou a passar aqui. Estou, até a escrever estas linhas ao seu som, ligado a um transformador para 110 volte – corrente dessa época, em Tomar.”
 
Tomar, 15 de Julho de 2008
Vasco.
 
Concerto a quatro mãos? Sim. Hoje tive companhia para escrever.
Pouco vou acrescentar, porque este meu filho, lê-me a alma como poucas pessoas. Nesta casa nasci. Nela fui muito feliz. Neste rádio ouvi muitos relatos de futebol,  ao domingo à tarde. Nele, pasmem, oh gentes, ouvi descrições das glórias do Manel, (Manuel dos Santos), no México ou em Espanha. E, esta, sou eu, Maria com 3 anos.
Tudo isto, o meu filho sabe, porque me pergunta e eu respondo.
Que eu ame a minha terra, que vá lá em “Busca do Tempo Perdido”, não me admira. Agora, que ele, tão novo, com um longo futuro à frente, se preocupe com um passado que nem é dele…
Amor por mim? Saudade do Avô? Ou é mesmo o DNA, em acção?        
Só ele pode dizer. Eu, só sei que fico feliz e emocionada, por sentir que um dia, poderei contar com ele, para me deitar, em cinzas, discretamente, silenciosamente, nesse rio que me corre nas veias.
Até um dia destes.
 

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Wednesday, July 16, 2008

É de Noite

É de noite que o passado me procura,
Com as lembranças boas e as más.
É na noite sem estrelas, fria e escura,
Que sonho os sonhos, que o dia me desfaz.
 
É na noite que busco a mocidade.
É na noite que penso no futuro.
É na noite que sinto mais saudade
Do que  não vivi e em vão procuro.
 
É de noite que o fumo do cigarro,
Me mostra a inconsistência desta vida.
Do mundo que não quero, mas agarro
Porque não sei viver noutra medida.
 
É de noite que penso: vou morrer!
Vou perder tudo o que tenho e sou.
E é então que mais quero viver
Sem saber como, nem para onde vou.
 
É também à noite que fumo o último cigarro do dia. O que mais prazer me dá,
talvez por ser de noite.
Até um dia destes.

Posted by Maria at 22:37:49 | Permalink | Comments (3)

Tuesday, July 15, 2008

Eu fui ao Jardim Zoológico

Se eu tivesse dez anos e, estivesse a escrever uma redacção, provavelmente, seria assim: “Fui ao jardim Zoológico com os meus avós e gostei muito. No jardim Zoológico há muitos animais. O animal que eu gostei mais foi a girafa, mas também gostei dos outros. Fomos ver o espectáculo dos golfinhos e das focas, que é muito giro. Os animais estão bonitos e bem tratados. Eu gosto muito do jardim Zoológico. Se calhar, qualquer dia, vou lá outra vez.”

Agora, que acabei a redacção, vou falar eu, Maria, 63 anos, visita antiga do “Jaleco”, adoradora incondicional, de toda a bicharada, das sombras do jardim, dos amendoins partilhados com os macacos, do sino do elefante, das corridas desenfreadas com as minhas primas, para ver qual chegava mais depressa a determinado lugar, das gargalhadas na casa dos espelhos…
Onde está isso tudo? Existiu mesmo, ou eu sonhei? A Ásia passeava os meninos às costas. Morreu há muito, a Ásia. Envelheceu muito, a menina de tranças, que eu fui. E o Jaleco, o meu jardim? Mudaram-no, modernizaram-no, transformaram-no em filme moderno de aventuras. Não estou a dizer mal. Um jardim zoológico, deve ser uma escola agradável para as crianças. Um sítio, onde aprendam com prazer a conhecer os animais, um sítio que lhes agrade à vista. Acho que conseguiram isso. Aquele misto de Indiana Jones e Harry Potter, deve deliciar a pequenada. Isso é que conta.
Eu, apesar de tudo diverti-me. Adoro as focas e os golfinhos. Aí, volto a ser criança. Até me esqueço que o barulho me incomoda.
Até um dia destes.

Posted by Maria at 11:06:49 | Permalink | Comments (4)

Thursday, July 10, 2008

Saudade antecipada

Tenho andado fugida. A explicação é apenas uma: tenho cá tido a minha neta. São tão poucos os dias, que tenho de aproveitar bem.
Blog? Computador? Que é isso, comparado com o prazer de ter comigo, esta mulherzinha de 12 anos, mais alta do que eu, linda e, sobretudo, muito amada? Para mim ser avó, é um dom divino. É voltar a ser mãe, sem as responsabilidades de o ser, é puder dizer, quase sempre, “Sim”, é puder voltar a ser um pouco criança, ou melhor, adolescente.
É um bichinho inteligente, distraído, por vezes brincalhona, outras mais séria. Tudo o mais que eu diga, será tomado à conta de babaquice de avó. No Domingo passado, vendo-a com o primo, felizes, amigos, lembrei os velhos tempos em que os pais eram assim. Foi bom, muito bom.
Amanhã, vou levá-la à Mãe. E agora, que já a sinto pela casa, sinto a falta que  na 2ª feira, me vai fazer. O melhor mesmo, é ir dar-lhe o pequeno almoço e, acabar com isto, antes de me derreter em lágrimas. Qualquer dia, ela volta, para me encher a casa e a alma de lembranças e, esperança num futuro que a mereça. A ela e a todos os netos do Mundo.
Até um dia destes.
Posted by Maria at 09:01:44 | Permalink | Comments (4)