Monday, June 30, 2008

Nota:

Por qualquer razão que desconheço, o texto dos “posts” tem vindo a ser truncado.

Para conseguir ver completamente, basta tirar 1 % ao nível do “zoom”, na barra de status, em baixo à direita.

Posted by Maria at 12:58:45 | Permalink | No Comments »

Não passaram

Fui educada por um Pai muito anti-espanhol. Tudo o que cheirasse a Espanha, tinha defeitos. Lá em casa o 1º de Dezembro era festejado com todas as honras. Detestava o Salazar, mas abominava Franco. De Espanha só se aproveitavam as touradas e, claro, as espanholas que, as mais das vezes, eram tão espanholas como eu. Levou anos, até admitir que, nos corria nas veias sangue galego. Então dizia: a Galiza não é Espanha. Não sei qual seria a reacção dele ontem, com a vitória da sua inimiga de estimação.
É verdade que, mais do que os espanhóis, ele abominava os alemães que, para ele, continuavam todos a ser nazis.
Pues, amigos míos, ayer, mis gotitas de sangre español, se han puesto en uno alborozo total. La vitória fué nuestra. Me senti ditchosa.
Espanhola non, pero Ibérica. Dentro en mi alma cantava Albeniz, Lorca, Rosalia de Castro, Miguel Torga…
Vou voltar a escrever em português que sempre digo menos disparates. E pensei em Torga, na noção que tinha de uma Ibéria única.

Ibéria


Terra.
Quanto a palavra der, e nada mais.
Só assim a resume
Quem a contempla do mais alto cume,
Carregada de sol e de pinhais.
 
Terra-tumor-de-angústia de saber
Se o mar é fundo e ao fim deixa passar…
Uma antena da Europa a receber
A voz do longe que lhe quer falar…
 
Terra de pão e vinho
(A fome e a sede só virão depois,
Quando a espuma salgada for caminho
Onde um caminha desdobrado em dois).
 
Terra nua e tamanha
Que nela coube o Velho Mundo e o Novo…
Que nela cabem Portugal e Espanha
E a loucura com asas do seu Povo.

Que melhor maneira de dizer, que afinal, as diferenças que nos afastam, são menores, que as imensas coisas que nos unem?
Assim, já que nós não conseguimos ganhar, é bom que a vitória tenha sido de Espanha.
Até um dia destes. 

Posted by Maria at 11:17:17 | Permalink | Comments (2)

Sunday, June 29, 2008

O Pavão

O pavão é uma ave galinácea, (não se nota nada, mas é), originária da Índia, muito bela, muito inútil. Embeleza jardins e parques, lança gritos estrídulos que nos atordoam, acasala e, mais nada.

A sua bela cauda aberta em todo o seu esplendor, lembra as exóticas sedas e loiças, da sua Ásia natal. Parece que é estúpido.
Não sei, porque nunca falei com nenhum.
Mas também, com tantos pavões e pavoas  sem cauda, que a gente bem conhece, podemos pensar, sem grande margem de dúvida que devem ser mesmo estúpidos. É vê-los, bem vestidos e fazendo discursos, ou pavoneando-se nas festas, nas ruas, que se repara que a diferença não é muita. Estes ao menos são belos e enfeitam.
Mando-vos uma fotografia de um dos primeiros. Os segundos, todos nós os conhecemos.
Até um dia destes.  

Posted by Maria at 18:52:43 | Permalink | No Comments »

Friday, June 27, 2008

Árvores do Alentejo

O Verão chegou em força. Há alertas de todas as cores do arco-íris, por todo o país. Como de costume, o Alentejo é que mais sofre. Aqui, o calor também se faz sentir com alguma força e, eu estou mole, cansada, a pedir a sombra de uma árvore e a frescura de um rio, (de preferência o Nabão, claro).
A minha preguiça, levou-me a pedir ajuda a uma fotografia e, à Florbela Espanca.
Por isso, aqui vai um soneto dela, que melhor que eu, pode dizer o que sinto.
 
Horas mortas… Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido… e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção de uma fonte!
 
E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro, a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas,
Os trágicos perfis no horizonte!
 
Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!
 
Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
 
E pronto! Com este desejo de água e de frescura, deixo-vos, até um dia destes. 
 
 

Posted by Maria at 21:48:12 | Permalink | Comments (4)

Tuesday, June 24, 2008

O meu canal preferido

Cada vez gosto menos de televisão. Estou farta de telenovelas, futebol, programas de variedades sem graça nem interesse, entrevistas chatas e o resto.
No entanto, lá vou vendo, criticando, mudando de canal, para ver se consigo passar o tempo.
Há uns dias para cá, uma velha inimiga que às vezes resolve moer-me o juízo, resolveu voltar, sem se anunciar, nem nada. Uma úlcera, muito antipática, que há tempos não dava sinais, atirou-me para um estado de debilidade física e moral, que nem para ler me deixa paciência. Nos momentos menos maus, resta-me a televisão.
Fui passando canal a canal e, quando já estava a desistir, cheguei ao R.T.P. Memória. Sim, eu sei, “que tudo são recordações”, algumas já muito velhas e muito repetidas, mas às vezes, lá vem um programa que vale a pena rever. Hoje, estive a ver o Sérgio Godinho, num programa de 1984. Sempre gostei muito do Sérgio.
Vê-lo e ouvi-lo foi muito bom. Ainda para mais, cantaram os Trovante, outra das minhas paixões antigas. Como eles eram novos! Como eu era nova! Voltei a vibrar com o “Fado da Rita”, (não sei se é este o nome), com “Hoje é o 1º dia do resto da tua vida”, “O Namoro”, cantado a duo pelo Sérgio e o Represas e, muitas outras.
Quase me esqueci desta malvada dor, que nunca mais vai embora.
Sei, que hoje estou particularmente chata e saudosista, mas procurem compreender, que é a minha inimiga, que me leva a isto.
Quando ela se for embora, vou estar melhor. Entretanto, continuarei a ver o meu canal preferido, o que me lembra a velhinha R.T.P, que sem altas tecnologias, fazia programas, que não envergonhavam ninguém. Aqui fica a minha homenagem para todos os que lá trabalharam nesse tempo, os vivos e os que já partiram.
Gaita! Que isto hoje parece escrito pela minha Avó.
Desculpem e até um dia destes. 

Posted by Maria at 20:23:36 | Permalink | Comments (8)

Friday, June 20, 2008

Frases fora de uso

Ontem, como de costume, a primeira coisa que li na “Visão”, foi a crónica de António Lobo Antunes. Leio-lhe os livros, devoro-lhe as crónicas. A sua personalidade é estranha. Nas entrevistas é arrogante, frio, distante. Depois, lê-se uma crónica como a de ontem e fica-se com a certeza que o Dr. é um ser humaníssimo, sensível, a deitar ternura por todos os poros e, a pedir ternura em todas as frases.
Diz, a certa altura, uma frase que, eu uso às vezes: “Bom como o pão”. É uma forma muito antiga e muito bonita, de avaliar as pessoas. “Bom como o pão”! É uma frase sábia. Sábia, como as formas antigas de classificar as coisas. Como dizer melhor, que uma pessoa é má, do que: “É má como as cobras”.
Há também aquelas que caíram em desuso. Dantes dizia-se, quando o dinheiro era pouco: “Para quem é, bacalhau basta” ou “O que tenho, não dá nem para o petróleo”. Petróleo, bacalhau, eram baratos. Agora….
Mas há outras frases e palavras, menos profundas, fáceis de dizer, que cada dia se ouvem menos e devem estar em vias de extinção.
Cá vão algumas: “Bom dia”, “Se faz favor”, “Com licença”, “Desculpe”, “Obrigada”, eram coisas que nos ensinavam quase à nascença. Hoje não se ouvem muito. No entanto, são curtas, agradáveis e, é bom escutá-las.
Que isto não pareça conversa de velha, mas acho que nem era difícil, voltar a usá-las.
O Dr. Lobo Antunes, nunca sonhará que me fez pensar tanto.
Até um dia destes.
Posted by Maria at 14:44:21 | Permalink | Comments (6)

Thursday, June 19, 2008

Francisco Stoffel - O fadista que não teve tempo

Nasceu em Cascais há quase 64 anos, mas nunca envelheceu.
A morte levou-o, poucos dias depois de fazer 22 anos.
Conheci-o mal e, tenho pena. Foi amigo desde menino, do meu marido. Brincaram, meteram-se em grandes aventuras, exploraram grutas. Eram “Os Vampiros”. Mais velhos, continuaram a ser amigos, embora o meu marido não seja grande apreciador de fados.
Um dia, recebi uma carta de Mafra, mais triste do que de costume.
O Chico, já não voltaria a cantar.
Já se tinha começado a ouvir na telefonia, “Por morrer uma andorinha”. Já tinha saído um disco com 4 fados cantados por ele.
Pouco tempo depois, deixou de se ouvir. Quem não aparece, esquece e, o Chico não poderia mais aparecer.
O Carlos do Carmo começou a cantar “Por morrer uma andorinha”,  à sua maneira. Sou fã confessa dele, mas cada vez que o ouvia, era outra a voz que queria ouvir.
Procurei anos por todo o lado, o disco do Stoffel, sem nunca o encontrar. Às vezes, poucas, alguém se lembrava dele e, ouvia-se o mesmo fado. Sempre o mesmo.
Um grupo de amigos, quis lembrá-lo agora, com uma exposição de fotografias e, a reedição do disco, em CD, com a colaboração da Câmara de Cascais, Teatro Experimental de Cascais e Museu do Fado.
Foi bonito. O meu marido encontrou amigos a quem não via há anos, eu consegui o disco tão desejado. Mas é pouco. Será que não há gravações, mesmo em fita, de que se possa fazer um disco maior? Quatro fados é pouco para mostrar aquela voz, aquele sentimento que ele dava ao fado.
De qualquer forma, vão ver a exposição e, ouçam a música que a acompanha. É ele, sim. A maneira como canta, faz pensar no grande fadista que se perdeu. A forma de cantar, triste, magoada, faz pensar, que ele sentia já saudades, do que nunca viveria.
As fotos, lembram, aquele quase menino, que deixou pais, irmãos e amigos, desgostosos de o perderem.
O Fado, perdeu alguém, que poderia ser hoje, um grande fadista.
Provavelmente, com o teu jeito brincalhão dirias: “Por morrer um fadista não acaba o fado”. Mas sem ti, ficou mais pobre.
Adeus Francisco Stoffel.
Nós, até um dia destes.

Posted by Maria at 17:26:27 | Permalink | Comments (7)

Sunday, June 15, 2008

O Sonho de um Homem

José Franco, oleiro, escultor, sonhou um dia, fazer à volta da sua casa e olaria, uma aldeia típica. Desde o moinho, a azenha, o açougueiro, a mercearia, a capela, o barbeiro, o dentista, o quarto de uma casa pobre, até à representação, por vezes animada, das diversas artes e ofícios, há de tudo. A sala da escola, lembra-me aquela, em que andei em pequena.
Depois, vem a aldeia, em miniatura e animada. Tudo mexe. Os serradores serram, as lavadeiras lavam, o rio corre. Fico fascinada a olhar aquele brinquedo maravilhoso.
Há restaurante, adegas, pátio para festas populares. Até há uns anos, havia um homem, de olhos azuis muito claros, cabeça toda branca, sorriso fácil, que enquanto trabalhava, falava às pessoas, com a afabilidade dos homens que, tendo a noção do seu valor, não se envaidecem, nem se acham superiores a ninguém.
Na minha anterior visita, estanhei não o ver. A explicação dada foi que, estava a descansar e, que já não trabalhava no mesmo sítio, porque se tinha zangado com a família. Ontem, voltei a não o ver.
A resposta, acompanhada de um sorriso dúbio, foi que estaria a descansar.
Agora, vi numa noticia de 2006, publicada na internet, que José Franco estaria num Lar na Ericeira, proibido de entrar na sua aldeia e, de trabalhar. Será possível?
Dizia-se, que a casa de um homem era o seu castelo. Este, sonhou uma aldeia, construiu-a, fê-la prosperar, para agora não o deixarem lá entrar? Não pode, não deve poder ser. Ninguém pode tirar o sonho a um homem. Sobretudo, quando esse sonho, fez a felicidade, a alegria de tanta gente, pequena e grande.
Se isto for verdade, nunca mais lá volto. Juro, senhor José Franco, por aquelas duas canecas de tinto, que juntos bebemos, pelas belas e sábias palavras que, lhe ouvi nesse dia, não vou voltar. Mas guardarei na minha caixinha dos sonhos, a sua maravilhosa obra.
Até um dia destes.

Posted by Maria at 22:40:39 | Permalink | Comments (4)

Friday, June 13, 2008

Foi em Cascais há 42 anos

Aqui, conheci o meu marido. Tudo começou por um amor de praia e, ainda não acabou.
Não lhes vou contar a história. Alguém, já a contou por mim.
Quem? Jacques Brel. Não me chamem pretensiosa, mas a minha (nossa) vida, está quase toda em: “La chanson des vieux amants”.
Só não são vinte anos. São quarenta e dois.
Por isso, pedi ao Brel, que me emprestasse uns bocadinhos, do seu belo poema:
        “Bien sûr, nous eûmes, des orages
         Vingt ans d’amour, c’est l’amour fol
         ::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
         Oh, mon amour…
         Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
         De l’aube claire jusqu’à la fin du jour
         Je t’aime encore tu sais je t’aime”
 
E pronto, está tudo dito.
Um beijo para o meu companheiro, desta longa caminhada. Outro para o Pai dos meus filhos. Outro para o Avô dos meus netos.
E já agora, outro para o dono do meu Nabão.
Até um dia destes.

Posted by Maria at 00:06:00 | Permalink | Comments (9)

Wednesday, June 11, 2008

Futebol, paralisação e, frases infelizes

Desde 2ª feira que o nosso país, Espanha e França, se encontram a braços com uma paralisação de camiões de longo curso que, nos abastecem de quase tudo o que necessitamos para viver. O pouco que produzimos está em sério risco de ser deitado fora, por falta de escoamento. Os produtores de leite, já avisaram que irão deitar fora os excedentes de leite, por não o puderem armazenar e conservar, se não for escoado. Os supermercados, já falam em rotura de stocks. Isto quer dizer, de uma forma crua, que o país vai paralisar e, vai haver fome. Fome! Sabem o que é? Eu, pessoalmente, também não. Mas já a vi. Não só na televisão, como aqui, ao pé de mim. Já vi crianças, vasculharem os contentores e, comerem todos os restos que encontravam. Sei, que no nosso país há fome.

Mas agora, é diferente. Os que já têm, vão ter mais. E, não se iludam, se isto continua por muito tempo, vamos todos tê-la.

Desta vez, não podemos criticar só o nosso governo, porque a questão se estende além das fronteiras, (que afinal continuam a existir). E, nós temos a francesa e a espanhola, para passar.

Tudo isto, parece não estar a preocupar muito as pessoas, nem mesmo aquelas que, primeiro vão sofrer. O futebol, tudo faz esquecer. Os aeroportos dizem que já não há gasolina, mas há poucos minutos, partiu um avião para Genebra.

Infelizmente, há sempre algum desmancha prazeres que, resolve deitar um dedal de água fria, neste país que se sente tão feliz.

O Senhor Presidente da República, ontem, referiu-se ao dia, chamando-lhe: “Dia da Raça”. É claro que, lhe caíram em cima, alguns senhores bem pensantes e, defensores das “amplas liberdades”. Raça, meus senhores, não quer só dizer cor de pele.

Tem mais significados. Uma pessoa com raça, pode ser uma pessoa valente, uma pessoa inteligente. Raça, não é só racismo.

Aliás, o Dr. Salazar, já nos classificava como: ”País multirracial”.
Na escola primária, aprendia-se que, o dia de Camões, era também o dia da Raça. Da raça portuguesa, sem diferenças de cor de pele.
Não sou, nunca fui Salazarista. Não sou, nem nunca fui racista. Por baixo da pele, somos todos iguais. Sempre houve negros em Portugal. Tive amigos e colegas negros e eram tratados da mesma forma que os outros.

E afinal, o Gedeão, quando analisou a “Lágrima de Preta”, parece que não encontrou: “Nem sinais de negro, nem vestígios de ódio” mas, “água quase tudo e, cloreto de sódio”.

Que me perdoem, os doentes do futebol, mas não é com vitórias da selecção que vamos resolver o grave problema que estamos a atravessar. Nem com isso, nem preocupando-nos com o nome que, o Senhor Presidente, chama ao dia 10 de Junho.

Sem alarmismos, mas conscientes, vamos tentar passar mais esta crise, sem nos atirarmos uns aos outros.
Até um dia destes.    

Posted by Maria at 12:12:06 | Permalink | Comments (2)