As flores da minha Mãe
Hoje, dia dos teus anos, lembrei-me de um pequeno ritual, que começou teria eu 15 anos e, terminou quando eu vim para Cascais.
Sabia que, uma das coisas que mais gostavas, era tomar o teu pequeno almoço, na cama. E, nesse dia, resolvi fazer-te esse mimo.
Levantei-me, desci as escadas até ao nosso jardim do Carvalhido, colhi um raminho de violetas pequeninas e cheirosas, a tua flor, Mãesinha. Depois fui à cozinha, fiz chá, duas pequenas torradas, com muito pouca manteiga, como gostavas. Por fim, tapei o tabuleiro com uma toalhinha branca bordada, pus a chávena com chá, as torradas quentinhas, um copo com as violetas e uns versos meus, para ti.
O Pai ainda dormia. Tu não. Parecias esperar qualquer coisa. Eu entrei de vagarinho, e baixinho disse: “Parabéns, Mãesinha. Gosto muito de ti”. Pousei o tabuleiro nos teus joelhos, sentei-me no chão ao lado da cama e, vi-te comer e ler os meus versos, com duas lágrimas a correr-te nas faces. No fim, abraçaste-me, beijaste-me a cara e o cabelo e, disseste meio a rir meio a chorar: “Obrigada, filha. Foi o melhor pequeno almoço da minha vida e, os versos são lindos”. Não seriam, mas aos olhos dela, eram.
Foi assim por alguns anos. Era o melhor bocado do dia para mim.
À noite havia jantar com as irmãs, os amigos e, claro, o meu Pai e os meus irmãos. Mas para mim a festa tinha sido de manhã.
Agora só assim posso reviver esses momentos. Daqui, para onde Ela está, uma lembrança do tabuleiro, as violetas, os versos chochos como de costume, mas de que vai gostar.
É sempre com os olhos rasos de água
Que me lembro de ti, minha Mãe querida.
É sempre com saudade e muita mágoa
Que vou sentir por toda a minha vida.
Partiste há tantos anos, mas a mim
Parece que foi ontem que partiste.
É sempre a mesma dor que não tem fim,
É sempre esta lembrança que persiste.
A saudade das tuas mãos pequenas e macias,
Dos teus beijos, na cara, nos cabelos,
A ternura dos teus olhos quando vias
Os teus filhos e netos, teus desvelos.
A tua voz, o calor do teu colo que perdi,
Eu vou lembrar a minha vida inteira.
E se de saudades ainda não morri,
É por me lembrar de ti, desta maneira.
Assim termino, Mãe. Beijos, saudades e até um dia.
