Aonde estava no 25 de Abril

Quando tudo começou estava a dormir, como a maior parte dos portugueses.
Fui despertada pelo telefone. Era o meu sogro a avisar que havia berbicacho em Lisboa. Liguei o rádio, convencida que seria outro golpe falhado, como o das Caldas, a 16 de Março. Naquele instante, ouvi uma voz que me era conhecida da rádio Portugal livre, a dizer versos que tinha lido, pouco tempo antes, num livro, mais ou menos clandestino, “A Praça da Canção”. Manuel Alegre dizia:
“Pergunto ao vento que passa
Noticias do meu país
E o vento cala a desgraça
E o vento nada me diz;”
Logo a seguir, o Zeca cantou “Grandola Vila Morena”. Depois o comunicado das Forças Armadas, pedindo calma e adiantando o que se passava. Vinham depois as canções, ditas proibidas: Adriano Correia de Oliveira, Zeca, Manuel Freire, Luís Cília…
Adelino Gomes e Joaquim Furtado, iam dando noticias. De vez em quando, novos comunicados. Eram cada vez mais animadores. O Aeroporto, a Emissora, a R.T.P., a Renascença tinham sido ocupadas. Por fim, a televisão mostra o Quartel do Carmo. Marcelo Caetano estava lá. Após vários avisos, Salgueiro Maia entra. Minutos depois, sai e manda chamar o Marechal Spinola. Marcelo tinha posto a única condição de lhe entregar o poder. Este veio. Passado pouco tempo, saiu Marcelo numa chaimite. O povo estava delirante. Havia cravos vermelhos por todo o lado, sorrisos em todos os rostos.
Eu, em casa, dizia aos meus filhos, que crianças, não entendiam o meu nervosismo, seguido de uma alegria delirante: somos livres, filhos, somos livres! Não perceberam nada, mas riram-se também.
Foi lindo. Depois de alguns dias em que todos se adoravam, começaram as desavenças. Houve, há muita coisa má, muita coisa feia, que desbotou os cravos. Mas a alegria daquele dia, nunca ninguém ma poderá tirar.
Talvez se alguém pensar na fala do Infante, na “Mensagem”:
“Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!”
Ou, em “Raiz” do “O Canto e as Armas”:
“Canto a raiz do espaço na raiz
Do tempo. E os passos por andar nos passos
Caminhados. Começa o canto onde começo
Caminho onde caminhas passo a passo.
E braço a braço meço o espaço dos teus braços:
Oitenta e nove mil quilómetros quadrados.
E um pais por achar neste pais.”
Aonde é que eu estava no 25 de Abril? A sonhar como é costume.
Até amanhã.
