Friday, April 25, 2008

Aonde estava no 25 de Abril


Quando tudo começou estava a dormir, como a maior parte dos portugueses.
Fui despertada pelo telefone. Era o meu sogro a avisar que havia berbicacho em Lisboa. Liguei o rádio, convencida que seria outro golpe falhado, como o das Caldas, a 16 de Março. Naquele instante, ouvi uma voz que me era conhecida da rádio Portugal livre, a dizer versos que  tinha lido, pouco tempo antes, num livro, mais ou menos clandestino, “A Praça da Canção”. Manuel Alegre dizia:
                      “Pergunto ao vento que passa
                       Noticias do meu país
                       E o vento cala a desgraça
                       E o vento nada me diz;”
Logo a seguir, o Zeca cantou “Grandola Vila Morena”. Depois o comunicado das Forças Armadas, pedindo calma e adiantando o que se passava. Vinham depois as canções, ditas proibidas: Adriano Correia de Oliveira, Zeca, Manuel Freire, Luís Cília…
Adelino Gomes e Joaquim Furtado, iam dando noticias. De vez em quando, novos comunicados. Eram cada vez mais animadores. O Aeroporto, a Emissora, a R.T.P., a Renascença tinham sido ocupadas. Por fim, a televisão mostra o Quartel do Carmo. Marcelo Caetano estava lá. Após vários avisos, Salgueiro Maia entra. Minutos depois, sai e manda chamar o Marechal Spinola. Marcelo tinha posto a única condição de lhe entregar o poder. Este veio. Passado pouco tempo, saiu Marcelo numa chaimite. O povo estava delirante. Havia cravos vermelhos por todo o lado, sorrisos em todos os rostos.
Eu, em casa, dizia aos meus filhos, que crianças, não entendiam o meu nervosismo, seguido de uma alegria delirante: somos livres, filhos, somos livres! Não perceberam nada, mas riram-se também.
Foi lindo. Depois de alguns dias em que todos se adoravam, começaram as desavenças. Houve, há muita coisa má, muita coisa feia, que desbotou os cravos. Mas a alegria daquele dia, nunca ninguém ma poderá tirar.
Talvez se alguém pensar na fala do Infante, na “Mensagem”:
                     “Quem te sagrou criou-te português.
                       Do mar e nós em ti nos deu sinal.
                       Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
                       Senhor, falta cumprir-se Portugal!”
Ou, em “Raiz” do “O Canto e as Armas”:
                      “Canto a raiz do espaço na raiz
                       Do tempo. E os passos por andar nos passos
                       Caminhados. Começa o canto onde começo
                       Caminho onde caminhas passo a passo.
                       E braço a braço meço o espaço dos teus braços:
                       Oitenta e nove mil quilómetros quadrados.
                       E um pais por achar neste pais.”
Aonde é que eu estava no 25 de Abril? A sonhar como é costume.
Até amanhã.          
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Sunday, April 20, 2008

O Conde da Vidigueira


Filho de Estevão da Gama, Alcaide Mor de Sines, nasce nessa mesma terra em 1469, Vasco da Gama. Torna-se marinheiro e, segundo alguns historiadores, acompanhou Bartolomeu Dias na epopeia que foi a passagem do Cabo das Tormentas, depois chamado da Boa Esperança.
Há dúvidas se terá sido designado para capitão da viagem à Índia por D. Manuel, ou por D. João II, tendo em conta que a expedição já estava planeada antes da morte do “Príncipe Perfeito” e até teria sido adiada pela sua morte repentina. A verdade é que a Armada partiu de Lisboa no dia 8 de Julho de 1497. Era composta por 4 navios: a Nau S. Gabriel, comandada por Vasco da Gama; a Nau S. Rafael, comandada por seu irmão Paulo da Gama; a Nau Bérrio, comandada por Nicolau Coelho e a Barca S. Miguel, comandada por Gonçalo Nunes. Esta última transportava mantimentos.
Aporta a Moçambique a 2 de Março de 1498. Depois de enfrentar tempestades medonhas, revoltas dos marinheiros, chega a Calecute no dia 18 de Abril de 1498.
Regressa a Lisboa no Verão de 1499. Vinha vitorioso mas triste. Seu irmão Paulo, morrera na viagem de regresso.
É-lhe concedido o titulo de Conde da Vidigueira, Almirante do mar das Índias, a posse de Vila Nova de Milfontes e Sines.
Volta duas vezes à Índia. A 1ª em 1502, para resolver problemas e abusos dos nativos, a 2ª em 1524 como governador e vice-rei. Por pouco tempo o foi, pois morre em Cochim no mesmo ano.
O seu corpo veio para Portugal, sendo sepultado na Vidigueira onde se conservou até 1880, ano em que veio para os Jerónimos.
Agora para vos compensar da minha pobre prosa, vou dar-vos um poema de Miguel Torga, que lhe é dedicado.
 
                Vasco da Gama
 
Somos nós que fazemos o destino.
Chegar à Índia ou não
É um íntimo desígnio da vontade.
Os fados a favor
E a desfavor,
São argumentos da posteridade.
 
O próprio génio pode estar ausente
Da façanha.
Basta que nos momentos de terror,
Persistente,
O ânimo enfrente
A fúria de qualquer Adamastor.
 
O renome é o salário do triunfo.
O que é preciso, pois, é triunfar.
Nunca meia viagem consentida!
Nunca meia medida
Do vinho que nos há-de embriagar!
 
Miguel Torga   “Poemas Ibéricos”
 
Torga merecia melhor apresentadora. Mas sei, que onde quer que esteja, vai gostar de que eu vos diga: leiam-no. Em prosa, em verso, como quiserem. Vão ficar mais ricos de certeza.
Até amanhã
 
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Tuesday, April 15, 2008

Castelo de Monsaraz

Desde miúda que gosto de Castelos. Com o meu Pai visitei bastantes e aprendi a utilidade que tinham tido nos primórdios da nossa História. Alguns, conquistados aos mouros, ajudaram os nossos reis a aumentar este País que amo, outros, já construídos pelos portugueses, defendiam-nos dos ataques da ganância dos nossos vizinhos espanhóis. Monsaraz, conquistado aos mouros em 1167, por Geraldo Geraldes, O sem Pavor, foi doado à “Ordem dos Templários” e, depois desta extinta, entregue  à “Ordem de Cristo”.
Entretanto, foi povoada e enriquecida com novas muralhas, mais fortes, que protegiam, Castelo e gentes.
Sempre gostei de castelos que abrigam ainda, casas, pessoas, Templos e, de há tempo para cá, pequenas lojas, que para além de venderem recordações, nos mostram os teares, as rocas, os fusos, que ainda trabalham e fazem aquelas mantas maravilhosas.
Quando era pequena, fui com o meu Pai a Óbidos, terra natal do meu avô, e que meu pai adorava. Era diferente do que é hoje, mas eu fiquei maravilhada com o que vi e com o que imaginei. Ao entrar na “Casa Das Rainhas”, senti-me, não rainha, mas moça de câmara, daquelas que seguiam a sua Rainha para todo o lado. Espreitei da janela e quase vi, o moço cavaleiro por quem meus olhos choravam. Sonhos de menina, romântica, que lia livros de histórias com mais vontade que comia.
Voltando a Monsaraz, já não tenho esses sonhos, mas vejo as coisas com olhos de ver. Tudo ali é lindo: o Castelo, as casas, a calçada das ruas, a gente que nos sorri e diz: Bom dia.
Ao longe, o Alqueva brilha. As opiniões acerca dele dividem-se.
É sempre assim. Depois falarei dele.
Se puder, hei-de voltar a Monsaraz. Era uma das nossas terras que me faltava ver. Se não conhecem não deixem de lá ir. Além de tudo come-se bem.
Até amanhã.
 

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Friday, April 11, 2008

Andorinhas

No Torrão, terra alentejana, berço de Bernardim Ribeiro autor do livro “Menina e Moça”, voltei a ver as minhas amigas andorinhas e os seus ninhos. No beiral da casa onde nasci, havia muitas. Era uma festa para mim vê-las chegar com os primeiros dias de Primavera e, sem hesitações irem direitas ao ninho, que tinham abandonado no Outono. As mais jovens, que já não podiam habitar com os pais, apressavam-se a fazer a sua casa, procurando ramos, palhas, pequenos pedaços de barro com que construíam o ninho, onde poriam os ovos e formariam uma nova família. Semanas depois, ouvia-se o piar fraquinho dos pequeninos e os pais saíam em busca de insectos para os alimentar. Os pios tornavam-se mais fortes, começavam-se a ver as cabecinhas quase sem penas, a espreitar a chegada dos pais com o alimento. Por fim, um dia lá se atreviam a tentar, primeiro desajeitadamente, depois mais seguros, a bater as pequenas asas e tentar imitar os pais a voar.
Eu seguia encantada e temerosa, aqueles voos curtos, mas cada vez mais seguros.
Quando saí dessa casa, perdi as minhas vizinhas, que me alegravam os dias. Só as tenho visto de longe. Por vezes tento saber onde moram, mas não me dizem. Talvez pensem que sou uma daquelas velhas malvadas que lhes destróem as casas.
Quando no Torrão,  vi tantos ninhos, fiquei a gostar ainda mais dos Alentejanos. Para eles, a natureza ainda é sagrada. Amam-na em todas as suas formas. Espero que não mudem. Pelo menos no Alentejo, eu consigo ver o mundo em que nasci. Ainda oiço, pessoas que nunca vi, dizerem: Bom Dia. Ainda oiço falar um português cantado, mas sem palavras estrangeiradas. Ainda vejo casas onde me apetecia viver. Este Alentejo interior é realmente um sítio muito especial para mim. Até quando?….
Até amanhã, talvez…

 

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Sunday, April 6, 2008

Charneca em Flor

É difícil, senão impossível, passar no Alentejo e não lembrar Florbela Espanca. Nascida em Vila Viçosa, foi desde nova, uma mulher insatisfeita, demasiado evoluída para a época em que viveu.
Nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Suicidou-se no dia 8 de Dezembro de 1930, aos 36 anos. Casou três vezes e, ao que parece não foi nunca feliz por muito tempo. A morte do irmão, que adorava, num desastre de avião, contribuiu e muito, para que decidisse pôr fim à vida. Depois de alguns anos sepultada em Matosinhos, foi trasladada para Vila Viçosa.
Esta mulher que tão bem soube cantar o Amor, morreu por nunca o ter encontrado, como o sonhara.
Amava o Alentejo e falou dele como mais ninguém.
Dela transcrevo, “Charneca em Flor”.
 
Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas…
Sob as urzes queimadas nascem rosas…
Nos meus olhos as lágrimas apago…
 
Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!
 
E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade…
 
Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!
 
Florbela Espanca  “Charneca em Flor”
 
Foi assim que vi o Alentejo. É lindo, calmo, simpático.
O único defeito é que se come demais. A comida alentejana é tão saborosa, que até um pisco como eu, come até quase rebentar. Mas sabe tão bem! E os doces? Eu sou pisco, mas sou gulosa.
E para terminar que tal uma “Sericaia”, com ameixas e respectiva calda?
Até amanhã.

Posted by Maria at 23:01:18 | Permalink | Comments (9)

Tuesday, April 1, 2008

Olá Cegonha

Nestes dias passados entre o Algarve e o Alentejo interior, vi muitos ninhos de cegonhas, e dei comigo a lembrar-me de um homem com cara de menino traquinas e feliz, que um dia as cantou tão bem.
Sabia, como poucos, ver a beleza das coisas simples, sabia ser feliz, alegre, brincalhão, romântico, brincava com coisas sérias, com graça, sem ofender ninguém. Escreveu e interpretou, além de “Olá cegonha”, “Pó de arroz”, “Cinderela”, “Lá longe Senhora”, “Versos de Amor”, todas românticas, ternas e cantadas com uma suavidade que me tocava. Depois, havia as brincalhonas, como: “A Marcha do pião das nicas”, “Ga-Gago”, “Zer-a-Zero”, “Prás sogras que encontrei na vida”, “Play-Back”, “Meia-Dúzia”. Há ainda uma, que a Amália cantava, que creio que se chamava “O Extraterrestre”. Fez programas para a Televisão, fazia concertos por todo o País. Quando corria para um desses concertos, a morte encontrou-o e levou-o com ela.
Tive pena, muita pena. Por isso, estes dias, cada vez que via um ninho de cegonha, ou uma delas a voar, dizia baixinho:
Olá cegonha
Gosto de ti
Há quanto tempo te não via por aí……
E depois, mais baixinho ainda: Olá Carlos Paião, gosto de ti, que
pena tenho de não te voltar a ver e ouvir.
Até amanhã.


Posted by Maria at 22:59:41 | Permalink | Comments (5)