Saturday, March 8, 2008

Maria mulher

Meu pai vai p’ra rua, só faz o que quer
Tu ficas en casa, varres a cozinha
Porquê minha mãe?
Porque ele é um homem, Maria menina
E eu sou mulher.
 
Meu irmão na rua só brinca ao que quer
Embalo a boneca, bordo toalhinhas
Porquê minha mãe?
Porque ele é um homem, Maria menina
E tu és mulher.
 
Meu homem da rua só vem quando quer
Eu fico em casa, varro a cozinha
Porquê minha mãe?
Porque ele é um homem, Maria menina
E tu és mulher.
 
Meu homem na cama faz tudo o que quer
Eu fico deitada, esperando que durma
Porquê minha mãe?
Porque ele é um homem, Maria menina
E tu és mulher.
 
Meu homem agora quer filho varão
E eu minha mãe, quero o que ele quer
Porquê minha filha?
Porque minha mãe, não quero uma filha
Que seja também Maria mulher.
 
 
                               Maria, 01/Julho/1985
 

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Dia Internacional da Mulher

Porque é que há um “Dia da Mulher”?
Que mulher é lembrada neste dia?
A mulher que continua a ser escrava, maltratada, descriminada, assediada no local de trabalho, a criar sozinha os filhos, a que é pai e mãe ao mesmo tempo?
A mulher fútil, inútil, que só pensa em manter uma juventude falsa, através de operações plásticas, que vive entre festas e só se preocupa em usar roupa e jóias mais belas, do que as outras, que só se lembra que tem filhos e netos, quando aparece nas Revistas, onde aparece em casas decoradas, aonde não vai senão dormir, quando não dorme em camas alheias?
A mulher médica, juíza, advogada, professora, gestora de Empresas, que demonstra tanta ou mais competência do que alguns homens?
A mulher que durante meses carrega no ventre um filho, que o cria e o ama durante toda a vida?
A mulher que é capaz de abandonar ou matar um filho?
De que mulher é hoje dia?
Meu, não. Para mim, dia da mulher é todos os dias. Diferente para cada uma.
A primeira, continua a ser maltratada.
A segunda, continua a ser inútil.
A terceira, continua a fazer o seu trabalho.
A quarta, continua a gerar, parir, criar, amar os filhos.
A quinta, vai continuar a existir, e cada vez mais.
Não nos dêem um dia. Dêem-nos o direito de escolher o que queremos ser.
E vós, mulheres, aquelas que o são de verdade, continuem a lutar pela igualdade que merecemos, todos os dias.
Eu sei, que muitas não vão concordar comigo. Sabe bem receber uma flor, porque é dia da mulher. E nos outros dias?
Até amanhã.    
 
Posted by Maria in 12:05:49 | Permalink | Comments (4)

Wednesday, March 5, 2008

Quando Santana era nome de actor

Conheci Vasco Santana, primeiro numa espécie de folhetim radiofónico, na Rádio.
Ele fazia de eterno enamorado de Irene Velez, namoravam, ele na rua, ela na janela de um terceiro andar, com a mãe (Elvira Velez), ouvindo toda a conversa, por causa das vizinhas. Era uma história ingénua, talvez pobre, mas que nos fazia rir a bandeiras despregadas. A voz de Vasco Santana, inconfundível, a maneira terna de falar de Irene Velez,  a agressividade de Elvira, fizeram de “Lélé e Zéquinha”, momentos inesquecíveis, dos meus tempos de menina. A maneira dele dizer: “Olha, filha, diz à tua mãesinha, aquela santa…” era só dele.
No teatro nunca o vi, mas os meus Pais, sempre que podiam, iam à Revista, por causa do Vasco e não só.
Só vi os filmes, pelo menos com olhos de ver, na televisão. Vi, revi e vou continuar a ver.
Não era só Vasco Santana. “Na Canção de Lisboa”, era António Silva, Beatriz Costa, Santos Carvalho. Cenas que não esquecem a quem já viu o filme. Foi seu realizador Continelli Telmo. “O Pai Tirano”, passado em grande parte no Chiado e no Grandella, que ainda conheci tão bem. Neste entravam, entre outros: Ribeirinho (impagável a cena da perseguição à Tatão, através de ruelas, escadinhas, escorregando por corrimões, escondendo-se, sei lá!), Leonor Maia, a linda Tatão, que conquistava os corações e vendia cheirinho a peso. Graça Maria, caixeirinha do Grandella e apaixonada pelo Ribeirinho, que não lhe ligava nenhuma.

E vem agora, o meu predilecto: “O Pátio das Cantigas”. Com realização de António Lopes Ribeiro, também realizador de “O Pai Tirano”, juntava um grupo de grandes senhores e senhoras. Comecemos por eles: Vasco Santana, António Silva, Ribeirinho, Barroso Lopes, António Vilar e muitos outros. Elas: Maria das Neves, Maria Paula, Maria da Graça e Laura Alves, a grande Laura Alves, além de outras.

Outros tempos, outras vidas. Mas, a verdade, é que ainda hoje, numa breve entrevista na televisão, novos e velhos se lembraram de frases destes filmes. A verdade, é que quase todos se lembraram daquele senhor gordo, de voz esquisita e riso fácil.
Morreu faz hoje 50 anos. Ainda é lembrado como merece. E ainda nos faz rir.
Agora, o único Santana de que me lembro, não é actor, representa mal, não é gordo e não lhe acho graça nenhuma.

Até amanhã

Posted by Maria in 21:56:50 | Permalink | Comments (12)

Monday, March 3, 2008

Valha-nos Santa Maria!

Posted by Maria in 19:22:51 | Permalink | Comments (2)

Sunday, March 2, 2008

Laços de sangue

Ontem, fui a Coimbra visitar alguém que me é muito querido. Já não a via há largos meses e, confesso que ia mais ou menos preparada para ter um grande choque emocional. A ultima vez que tinha estado com ela, falámos muito. Contou-me histórias de antigamente, falou-me dos meus Pais, da minha Avó, de tantos que amámos e já partiram. Tem agora 95 anos. Há uns meses, depois de um A.V.C. e muitas complicações respiratórias, cardíacas e ameaços de paragens de outros órgãos, todos nos convencemos que nos ia deixar. O tempo foi passando e ela resistindo. Uns dias pior, outros sem grandes diferenças. De vez em quando, alguma coisa corre mal e, lá vai uns dias, poucos, para o hospital.
O facto de Ela estar a viver em Coimbra e eu perto de Lisboa, tem-me levado a protelar a visita? Mentira. Esta é a desculpa cobarde que eu dei aos outros e a mim, para mascarar o medo, o terror, de ver o que não queria. Por fim ganhei coragem. E ainda bem que assim foi. Não consegue falar, mas ouve e entende o que lhe dizemos. Não mexe uma das mãos, mas a outra agarra-nos com força e acarinha-nos. O seu olhar olha para nós com a mesma ternura de sempre e reconhece-nos. Sorri, chora, tem as emoções à flor da pele. Está viva, lúcida. Nunca mais vou estar tanto tempo sem a ver. Afinal, Ela é a última da geração que me precedeu. É o que me resta do meu Pai, da minha Avó, dos outros tios. Ela é o último elo que liga o passado ao presente e até ao futuro.
Não nos deixe, Madrinha. Nós não a queremos perder, nem passarmos a ser a geração dos velhos.
Há frases que eu digo raramente, esta é uma delas: Gosto muito de si.
Até qualquer dia, em breve.
 
Posted by Maria in 18:14:50 | Permalink | Comments (12)