Tuesday, March 25, 2008

A Mulher que soube esperar

Era fisicamente, muito frágil. Ao contrário, o espirito era de uma força, de uma persistência, impressionantes.
Conheceu pequena um primo. Nessa altura viviam ambos em Lisboa, onde ela nascera. Um dia, a morte dos pais, levou-a para longe de Lisboa e da família do lado da mãe. Mantinham apenas relações por escrito. Os transportes eram caros, lentos e incómodos. Durante anos, os dois primos não se viram. Lembravam-se que existiam, mas praticamente, não se conheciam.
Um dia, ele e o irmão, apanharam o comboio e foram ver as primas, à Quinta, onde viviam.
Os dois apaixonaram-se à primeira vista. Ele voltou para Lisboa, Ela ficou.
As cartas diárias, alimentavam aquela chamazinha, que nela se transformou em labareda. Ele, vivendo na Capital, tinha uma vida bastante boémia, e ao fim de um tempo, começou a espaçar as cartas. Ela continuava a escrever todos os dias. Sabia, pelas irmãs dele, a vida que levava. Lutava contra a má vontade dos seus irmãos que sendo solteiros, não a queriam ver casada.
Continuava a escrever cartas, que a maior parte das vezes não tinham resposta. Qual Penélope, ia fazendo o enxoval. E esperando, esperando sempre.

Passaram treze anos. Ele voltou. Ainda que contra a vontade dos irmãos dela, casaram. Tiveram quatro filhos, uma das quais morreu pequenina. O rapaz e as outras duas, estão vivos. Não foi um mar de rosas a vida deles. Frequentemente ela adoecia.

Às vezes, ele fazia-a sofrer. A parte boémia dele, nunca desapareceu por completo. O dinheiro também não era muito. Ela, tudo suportava calada, resignada, sem queixas, sem dramas. Teve muitos momentos felizes, outros de desgosto, mas superava tudo.
Adoeceu gravemente. Sofreu, mais de seis anos, quase sem queixas. Conheceu-o até ao fim. Amou-o até ao fim. Ele era o homem que ela esperara treze anos.
Esperou a morte, com a resignação do dever cumprido como Mulher, como Mãe, como Avó. Morreu, com a serenidade de ter conseguido realizar o seu sonho de amor. Morreu nos braços dele, como sempre tinha desejado.
Faz hoje trinta e seis anos, que a minha Mãe, que amo e admiro ainda, nos deixou.
Ela, foi a mulher que soube esperar, amar, perdoar, dar tudo de si, por aqueles que amava.

Até amanhã.

Posted by Maria in 00:38:54 | Permalink | Comments (9)