Friday, March 28, 2008

O meu Jacarandá

Em frente à minha casa há três Jacarandás. Hoje vi que um deles estava já cheio de flores. Como vou estar fora uns dias, lembrei-me de vos deixar esta foto, juntamente com os versos de Nuno Júdice.
Quem os canta é Carlos do Carmo, com música de Joaquim Campos, no  seu último CD: “À Noite”.
O poema chama-se: “Lisboa Oxalá”.
 
Tal qual esta Lisboa, roupa posta à janela,
Tal qual esta Lisboa, roxa jacarandá,
Sei de uma outra Lisboa, de avental e chinela,
Ai Lisboa fadista de Alfama e oxalá.
 
Lisboa lisboeta da noite mais escura
De ruas feitas sombra, de noites e vielas,
Pisa o chão, pisa a pedra, pisa a vida que é dura,
Lisboa tão sozinha, de becos e ruelas.
 
Mas o rosto que espreita por detrás da cortina
É o rosto de outrora feito amor, feito agora.
Riso de maré viva numa boca ladina
Riso de maré cheia num beijo que demora.
 
E neste fado o deixo esquecido aqui ficar
Lisboa sem destino que o fado fez cantar,
Cidade marinheira sem ter de navegar
Caravela da noite que um dia vai chegar.
 
Assim me despeço de vós e da minha Lisboa, até um dia destes.

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Tuesday, March 25, 2008

A Mulher que soube esperar

Era fisicamente, muito frágil. Ao contrário, o espirito era de uma força, de uma persistência, impressionantes.
Conheceu pequena um primo. Nessa altura viviam ambos em Lisboa, onde ela nascera. Um dia, a morte dos pais, levou-a para longe de Lisboa e da família do lado da mãe. Mantinham apenas relações por escrito. Os transportes eram caros, lentos e incómodos. Durante anos, os dois primos não se viram. Lembravam-se que existiam, mas praticamente, não se conheciam.
Um dia, ele e o irmão, apanharam o comboio e foram ver as primas, à Quinta, onde viviam.
Os dois apaixonaram-se à primeira vista. Ele voltou para Lisboa, Ela ficou.
As cartas diárias, alimentavam aquela chamazinha, que nela se transformou em labareda. Ele, vivendo na Capital, tinha uma vida bastante boémia, e ao fim de um tempo, começou a espaçar as cartas. Ela continuava a escrever todos os dias. Sabia, pelas irmãs dele, a vida que levava. Lutava contra a má vontade dos seus irmãos que sendo solteiros, não a queriam ver casada.
Continuava a escrever cartas, que a maior parte das vezes não tinham resposta. Qual Penélope, ia fazendo o enxoval. E esperando, esperando sempre.

Passaram treze anos. Ele voltou. Ainda que contra a vontade dos irmãos dela, casaram. Tiveram quatro filhos, uma das quais morreu pequenina. O rapaz e as outras duas, estão vivos. Não foi um mar de rosas a vida deles. Frequentemente ela adoecia.

Às vezes, ele fazia-a sofrer. A parte boémia dele, nunca desapareceu por completo. O dinheiro também não era muito. Ela, tudo suportava calada, resignada, sem queixas, sem dramas. Teve muitos momentos felizes, outros de desgosto, mas superava tudo.
Adoeceu gravemente. Sofreu, mais de seis anos, quase sem queixas. Conheceu-o até ao fim. Amou-o até ao fim. Ele era o homem que ela esperara treze anos.
Esperou a morte, com a resignação do dever cumprido como Mulher, como Mãe, como Avó. Morreu, com a serenidade de ter conseguido realizar o seu sonho de amor. Morreu nos braços dele, como sempre tinha desejado.
Faz hoje trinta e seis anos, que a minha Mãe, que amo e admiro ainda, nos deixou.
Ela, foi a mulher que soube esperar, amar, perdoar, dar tudo de si, por aqueles que amava.

Até amanhã.

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Thursday, March 20, 2008

Páscoa

Olho-te sentada, o rosto amargurado,
Miras teu filho exangue, ferido, morto.
Em teu colo de mãe que o embalou
Jaz agora caído, inanimado.
A esponja de fel que lhe foi dada,
És tu agora quem a sorve toda.
E as outras mulheres à tua roda,
Esperam ver-te cair desanimada.
E tu ali, serena, resignada,
Mas certa que era por nós, que ele morria.
Seria em vão, Maria?
Por ti, por Ele, que nos deu a vida,
Pede-lhe de novo a Paz do mundo inteiro.
Pela dor imensa que sofreste, pela dor de outras mães,
Que a guerra acabe, e nunca, nunca mais,
Haja Materes Dolorosas como tu.
 
Estive em Roma em 2006. Tudo me maravilhou. A “Pietá” fez-me uma impressão tão intensa, que fiquei parada, muda, trémula, durante vários minutos. Hoje, dia em que começa a “Páscoa”, pedi-a emprestada ao Michelangelo, para juntamente com uma pobre  poesia minha, vos mostrar, que afinal, a Páscoa, não é só amêndoas, coelhinhos, ovos de chocolate e outras coisas mais.  Depois de olharem bem para a imagem, pensem nas muitas mulheres que perderam os filhos, nas guerras que devastam o mundo.
Esqueçam tudo isto.
Façam os possíveis, por ter uma Páscoa Feliz.
Talvez, um dia, a Paz porque Ele morreu, exista. Talvez, não tenha sido vã, a dor daquela mulher.
Quem sabe…
Até amanhã
 

Posted by Maria at 20:40:27 | Permalink | Comments (8)

Obrigada Pai

Ontem, fez o meu filho anos e não quis pensar muito no “Dia do Pai”. Desde que o perdi, todos os dias são “Dias sem Pai”.
Hoje, quero falar dele, assim em forma de carta, ou como se estivesse a dizer-lhe frente a frente, o que Ele merece.
 
Pai
Pelo teu olhar terno, pelo teu olhar duro, quando te zangavas comigo, pelas horas de conversa, pelos silêncios, por tudo o que me ensinaste, por me teres dado grande parte da pouca cultura que tenho, por me teres ensinado a ver a vida como a vejo, por me teres alimentado os sonhos e a sensibilidade, por me teres entendido quando mais ninguém entendia, por teres sido o Avô mais maravilhoso do mundo, por teres deixado tantos amigos, que me falam de ti com grande carinho e saudade, por tudo isso e muito mais, obrigada Pai.
 
Não consigo dizer mais nada. Sinto muita falta dele, muita saudade, para poder dizer mais alguma coisa.
 
Até amanhã.
 
Posted by Maria at 09:33:49 | Permalink | Comments (8)

Monday, March 17, 2008

Crianças

Estou feliz. Hoje tenho de novo uma criança comigo. Durante quinze dias vai ser assim. Primeiro o neto, que já dorme, depois de ter me ter ouvido cantar, como sempre a  “Canção de Embalar” do Zeca Afonso. Ouve-a desde os três meses, tem agora nove anos e continua, cada vez que cá está, a pedi-la. Se eu tivesse que pagar os direitos de autor, acho que já era um balúrdio. Depois, virá a neta. Quando era pequenina, preferia histórias às canções. Agora, com doze anos, como será?
De qualquer modo, vão ser uns dias cheios. Procurar fazer os pratos de que mais gostam, entretê-los, ver filmes com eles, sentir-lhes o cheiro, tocar-lhes, vê-los dormir, ouvir-lhes a respiração calma do sono.
Foi muito bom criar três filhos, mas tinha que ser mais severa, afinal a obrigação de os educar era minha.
Ter netos é diferente. Posso ser mais doce, mais permissiva.
Como eu os amo a todos! Com que alegria os acolho debaixo das minhas asas!
Até amanhã, se tiver tempo.
 
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Saturday, March 15, 2008

Farmácias da minha terra

Esta semana, vi no “Templário” que a Farmácia Dias Costa, vai sair da Corredoura. Depois de a “Nova” ter saído da Rua Silva Magalhães, só restam na Tomar antiga, a “Torres Pinheiro” e a “Misericórdia”.
Na realidade seriam precisas mais farmácias na parte nova e mais populosa de Tomar. É justíssimo que os donos destas farmácias se queiram mudar para sítios onde os negócios lhes serão mais lucrativos, como é justo que as pessoas que vivem fora da parte velha, tenham farmácias mais perto.
De qualquer modo, doeu-me ver desaparecer mais duas referências da minha infância.
Nos meus primeiros anos, a farmácia “Nova”, era a farmácia do senhor Torres. Como ficava na rua onde eu morava, era lá que eu ia tratar a cabeça partida (pelo menos três vezes), um golpe profundo no queixo, as esfoladelas frequentes dos joelhos, levar injecções, estancar o sangue do nariz. O senhor Torres, com paciência e até uma certa ternura, lá me ia tratando as maleitas.
Mas, se por acaso, estivesse na Corredoura, era o senhor Pimenta, que me punha o algodão com água oxigenada no nariz ou me tratava do joelho deitado abaixo. Por isso não me levem a mal o saudosismo.
Há, no entanto outra coisa que me aflige mais: ver a parte antiga de Tomar desaparecer, esboroar-se, modificar-se cada vez a um ritmo mais acelerado. Na Corredoura, na Praça e ruas limítrofes, está a desaparecer quase todo o comércio. As casas, à medida que são abandonadas, vão-se degradando de uma maneira assustadora.
É isto o progresso? Para mim não. A cidade podia crescer, modernizar-se, sem deixar morrer tudo o que a tornava diferente e única.
Coisas de velha? Talvez. Mas também um amor muito grande à minha terra e o medo de um dia lá chegar e não a reconhecer.
Esse dia acho que seria a última vez que lá voltava. Prefiro a minha terra de antigamente, aquela que ainda existe bem viva, na minha memória, aquela onde vivi uma infância muito feliz.
Até amanhã.
 
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Wednesday, March 12, 2008

Outra vez livros

Já li três, dos que comprei ontem. Vou só falar de dois: “Nambuangongo, Meu Amor” e “Doze Naus”. Ambos do mesmo autor, Manuel Alegre. Tenho todos os livros dele e, já conhecia a maior parte dos poemas do primeiro. Mesmo assim foi bom relê-los. O segundo, mostrou-me que como poeta, continua a ser o mesmo: Muito bom.
No prefácio de “A Praça da Canção”, Mário Sacramento diz, a certa altura: “Tudo tem um passado, um liame de devir. Mas não há neste livro um só poema_abstracção feita dos que são paráfrases internacionais_que possa dizer-se à maneira de. Verso livre ou metrificado, poema de ocasião ou reflexão, canções ou trovas, odes e rimances, elegias e epigramas, toadas e cartas, redondilhas e sonetos, crónicas e baladas, tudo se move com a qualidade própria, levando-nos lá dentro. O poeta aprendeu o preço exacto da canção que traz  à praça com o seu sangue… (“Seara Nova” nº1435, Maio de 1965). Acho que foi a melhor maneira de o definir.
Em prosa, também Manuel Alegre já mostrou o que vale. “Alma”, creio que o seu primeiro livro como romancista, ele mostra a Alma da terra onde nasceu. Era a terra do meu avô materno, a minha Mãe adorava-a, viveu lá alguns anos. Talvez por isso, me diga muito. Fala de locais, pessoas, histórias que me habituei a ouvir desde miúda. Talvez porque o meu segundo nome seja o dessa terra. Há outro de que gosto muito: “Cão como nós”. Talvez por que também eu acho que o meu cão é um “cão como nós”, talvez porque demonstra a grande sensibilidade do poeta.
Não gosto de falar de política, mas prefiro o poeta, o escritor. Por isso, gostaria que ele escrevesse mais. Isto não quer dizer que não o admire como lutador, como idealista, como sonhador num país de sonhadores. Talvez seja isso que o faz tomar certas atitudes. Mas como já disse, a política diz-me pouco. É o poeta que admiro. O resto não me toca.
Até amanhã.
 

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Tuesday, March 11, 2008

Livros


Desde muito pequena, que adoro livros. Comecei a ler cedo, em parte, porque o meu Pai tinha livros por todo o lado.
Eu, olhava-os com a mesma gula, que as outras crianças olhavam para um chocolate. Por isso, tive pressa em descobrir o que eles tinham dentro.
Comecei pelas histórias da condessa de Ségur, que devorava em horas. Depois, o meu Pai, começou a dar-me os livros de Júlio Dinis, que eu lia de uma acentada. Quando estava a ler, era escusado falarem comigo, porque, ou não ouvia, ou ficava irritada, coisa que aliás ainda hoje acontece. Aos dez anos, já conhecia Camilo, Alberto Pimentel, Rocha Martins, Arnaldo Gama, Almeida Garrett e Eça. Deste apenas tinha lido três livros: “Os Contos”, “A Cidade e as Serras” e “A Ilustre Casa de Ramires”. Os outros não eram próprios para meninas. Pouco depois, descobri que com uma faca, conseguia abrir a estante, onde estavam guardados, e com quinze anos, já os tinha lido todos. Depois, o meu irmão, deu-me um livro de Miguel Torga: “Novos Contos da Montanha”. Foi amor à primeira vista. Todos os livros dele, estão na minha estante, leio-os vezes sem conta. Mais tarde, conheci Aquilino, Fernando Namora, Irene Lisboa. Também os estrangeiros me prenderam, sobretudo os franceses: Zola, Balzac, Victor Hugo e Saint Exupéry. Assim, como Remarque e Hemingway. Por isso, quando entro numa livraria, entro em transe, esqueço-me de tudo. Respiro o cheiro dos livros, como se respirasse um perfume.
Hoje fui ao Mercado da Ribeira, onde decorre uma feira de livros. Devo ter feito a mesma figura, que uma criança numa loja de brinquedos. Não sabia qual escolher, queria quase todos.
Saí, com dois sacos cheios de livros, a carteira mais leve e a cantarolar: “O Tango Ribeirinho”, do Ary, para grande desespero do meu marido.
Agora, vou pegar nos meus livros e, decidir qual vai ser o primeiro. A escolha é difícil.
Até amanhã, se os livros me deixarem.
 
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Monday, March 10, 2008

Poema do gato

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
 
Sempre que pode
foge para a rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
 
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
 
Quando abro a porta corre para mim
Como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
 
Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.
 
Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?
 
António Gedeão (Novos poemas póstumos)

Eu também não tenho gato. Prefiro o cão. Mas este poema de um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, é um dos que mais gosto. Comove-me e ao mesmo tempo, diverte-me.
Espero que gostem.
Até amanhã.

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Sunday, March 9, 2008

Explicação

Ontem, depois de ter publicado o último post, reparei que, só algumas pessoas, as da minha idade ou mais velhas, poderiam perceber as razões que me levaram a fazê-lo.
Vivi os meus anos de adolescência num tempo muito diferente do de hoje, no princípio dos anos sessenta e, com uns Pais à moda antiga. Só saía sozinha para ir para as aulas e mesmo assim, tinha horas para chegar a casa. Isto não quer dizer, que por vezes, não aldrabasse os horários, para estar mais um bocadinho com as colegas, ou algum namorado. Os liceus, nessa altura, não eram mistos. “O Carolina” ficava ao cimo de umas escadarias, o “D. Manuel” lá em baixo, depois das escadarias e da Rua Oliveira Monteiro. Além disso, os policias, rondavam o Liceu feminino para que os rapazes não se aproximassem. Já vêem como era difícil o namoro em Portugal.
Em casa, aprendíamos o que uma menina destinada ao casamento, devia saber: coser, bordar, fazer renda, cozinhar, enfim todo o trabalho que competia a uma mulher. Mesmo no liceu, tínhamos aulas de formação feminina, patrocinadas pela mocidade portuguesa.
Sair de casa, só com os Pais atrás. Ir ao cinema com as amigas? Nem pensar. Namoro? Só em casa e com a Mãe a tomar conta.

Isto só nos levava a mentir, a arranjar maneiras mais ou menos espertas, para termos um bocadinho de liberdade. Havia sempre uma amiga mais velha e já casada, que nos encobria e nos ajudava em algumas “fugas” às regras paternais.

Não foi esta a educação que dei à minha filha. Não sei se foi pior ou melhor. Ela é que poderá dizê-lo. Tudo o que ela fazia em casa, e era muito, os irmãos também faziam. Teve a mesma liberdade para sair, quando e com quem queria. Se fiz bem ou não, não sei, volto a dizer.
Um dia, lembrei-me da minha mocidade, da mocidade de algumas contemporâneas, e saiu-me esta “Maria Mulher” de rajada. Ontem encontrei-a. E, mesmo depois do que já tinha escrito, resolvi partilhá-la convosco.
Não pensem com isto, que alguma vez tive pena de ser mulher. Eu gosto de ser mulher.
O que não quer dizer, que às vezes, não me tenha sentido revoltada.
Até amanhã
 

Posted by Maria at 12:55:07 | Permalink | Comments (4)