Wednesday, February 13, 2008

Fado errado

Há um fado com este nome. Já o ouvi cantado por várias fadistas, mas a única de que tenho o CD, é a Cidália Moreira. Gosto dela e do fado.
Hoje, porém, lembrei-me do fado por outras razões. Quando conheci o meu marido, já lá vão quarenta e tal anos, ele gostava de jazz, mergulho, pintava e acima de tudo detestava futebol. Não sabia nomes de futebolistas, irritava-se quando alguém falava em futebol, achava que era o desporto mais estúpido do mundo.
Quando casámos, às vezes em casa dos meus sogros, eles assistiam aos jogos pela televisão, ou ouviam os relatos na rádio. O antifutebolista primário, fugia a sete pés comigo e os putos a tiracolo, protestando contra a falta de gosto dos Pais.
Os anos passaram e, como diria Camões:  ”Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. O antifutebulista primário que conheci, não perde um jogo de futebol, sabe os nomes dos jogadores, (às vezes chama-lhes outros), diz mal de quase todos, explica-lhes as jogadas, vibra com os golos. Isto tudo sentado no sofá. Mas pelo andar da carruagem, estou a vê-lo, um dia, num estádio, armado em treinador de bancada. Não sei é por que clube será, porque para ele deve ganhar o que jogar melhor.
“Fado errado”, porquê? Porque uma das coisas que me levou a gostar dele, foi o facto de não apanhar com as secas do futebol. Agora é isto que se vê: bola todos os dias.
Isto não impede que continue a gostar dele. “Agora quer eu queira, quer não queira, para o esquecer, é tarde”.
Se amanhã eu não escrever, é porque ele se fartou das minhas brincadeiras e me trancou o computador.
Até amanhã, se ele quiser.
 
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Tuesday, February 12, 2008

Estórias de estudantes de Coimbra de antigamente

Aqui há dias, achei graça, a uma estória do Blog “Ás vezes fim de semana”.
Lembrei-me de várias, que o meu Pai contava do tempo do meu Avô e de algumas ligeiramente mais modernas.
O meu Avô, foi considerado “o mais velho abencerragem” da faculdade de direito, porque levou dez anos para tirar um curso de cinco. Isto vem escrito, não me lembro se no “Livro do Dr. Assis”, ou na “Porta Férrea” de Serrão de Faria. São ambos livros sobre a Coimbra e da mesma altura: cerca de 1900.
A primeira estória passou-se mesmo com o meu Avô. Pelo tempo que se demorou, dá para ver que não terá passado todo o tempo a estudar. Fazia, segundo se conta, uma vida bastante boémia. O dinheiro que o pai lhe mandava nunca chegava até ao fim do mês.
Tinha ele um relógio de ouro, (que hoje é do meu filho) que volta e meia ia parar ao prego. Uma noite, depois de bem bebido, passou à porta do “invejoso”. O homem veio à janela estremunhado, e perguntou-lhe o que queria. A resposta foi rápida e cortês: “Olhe senhor Fulano, eu só queria pedir-lhe o favor de me dizer, que horas são no meu relógio”.
Outra, um pouco mais moderna passou-se com um médico, acabado de formar, que tinha feito planos de ir ao Brasil, com os colegas. Pediu dinheiro ao pai, que lho negou, por achar a viagem por mar muito perigosa. (Ainda não havia viagens de avião). Ele, aproveitando-se, da ignorância e ingenuidade do homem que lhe pagara o curso, respondeu-lhe: “O pai tem razão, mas mande-me o dinheiro na mesma, porque eu irei de combóio. E foi ao Brasil. Não de combóio, claro, mas de navio. Segundo sei, o pai morreu convencido, que o filho respeitara a sua vontade.
As outras ficam para outro dia.
Até lá.

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Sunday, February 10, 2008

Por teu livre pensamento


  
Hoje acordei com vontade de ouvir a Amália. Mas não um fado qualquer. Queria mesmo era a Amália, cantando Alan Oulman, David Mourão Ferreira, o “Abandono” ou “Fado de Peniche”. Sempre gostei deste fado, sempre me comoveu. Um dia, pouco depois do 25 de Abril de 1974, fui visitar o Forte de Peniche e durante toda a visita, cantei-o baixinho, com as lágrimas caindo-me pela cara, como se rezasse, por todos aqueles que por lá passaram e tanto lá sofreram. Lembrei a fuga de Álvaro Cunhal e de outros, senti o vento e o mar que eles ouviram.
Já todos se foram: Oulman, o francês que tanto sentiu e amou o fado. Que por ter ajudado militantes antifascistas foi preso e deportado, morrendo em Paris em 1990.
David Mourão Ferreira, lisboeta, nascido em 1927, grande poeta, grande romancista, grande jornalista. Conheci-o, através da televisão, sempre com o seu cachimbo e o seu ar calmo de quem sabe o que está a fazer. Depois li tudo o que consegui ler e releio-o muitas vezes. Morreu em 1996.
Amália Rodrigues, nasceu em Alcântara em 1920. Todos sabem quem foi. Cantou como ninguém, desde a música popular portuguesa, passando pela música estrangeira e, claro o fado. Todo o fado. O popular, o intelectual, até o revolucionário, sem que nunca ninguém se atrevesse a chamar-lhe a atenção. Morre em 1999.
Álvaro Cunhal nasceu em Coimbra em 1913. Adorado por uns, odiado por outros, mas nunca ignorado, nunca esquecido. Além de político, foi pintor e escritor de algum mérito. Morreu em Lisboa em 2005.
Em Peniche, em noites de vento e de mar grosso, as sombras dos quatro juntam-se, talvez murmurando o “Fado de Peniche”. Será que alguém os ouve?
Para que me perdoem a má prosa e o atrevimento, mando-vos uma foto do Forte e os versos de David Mourão Ferreira.
           
               “Por teu livre pensamento
                foram-te longe encerrar.
                Tão longe que o meu lamento
                não te consegue alcançar.
                E apenas ouves o vento.
                E apenas ouves o mar.
 
               “Levaram-te, era já noite:
                a treva tudo cobria.
                Foi de noite, numa noite
                de todas a mais sombria.
                Foi de noite, foi de noite,
                e nunca mais se fez dia.
 
               “Ai dessa noite o veneno
                persiste em me envenenar.
                Ouço apenas o silêncio
                que ficou em teu lugar
                Ao menos ouves o vento!
                Ao menos ouves o mar!”
 
David Mourão Ferreira  letra, Alan Oulman música, Amália, a grande intérprete, Álvaro Cunhal o representante de todos os presos políticos, que sofreram nas cadeias do nosso País e no antigo Ultramar.
Eles que me perdoem tão modesta homenagem.

                                               

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Saturday, February 9, 2008

A diferença da cor


Em tempos, o meu Pai fumava cigarros de mortalha. Tinha uns papelinhos, uma onça de tabaco e fazia os cigarros introduzindo o tabaco nos papelinhos, enrolando bem e passando a ponta da língua na cola da folhinha, fazendo uns rolinhos finos. Mais tarde passou a fumar, uns maços de “Três Vintes”durante muitos anos. Um dia, apareceram duas marcas de tabaco chamadas respectivamente, “Benfica” e “Sporting”. Quando todos pensávamos que, ele, benfiquista ferrenho iria optar pelo “Benfica”, aparece-nos a fumar “Sporting”. Porquê? Perguntamos espantados e até um pouco indignados. A explicação veio rápida e lógica: Andava a tentar queimar o “Sporting”.
Hoje, entendi-o perfeitamente. Eu fumo, há muito tempo, “Gauloises azul”. Ontem, na tabacaria onde costumo comprá-los só havia vermelhos. Em desespero de causa, lá comprei os vermelhos. Quando me preparava para matar o vício, não gostei. Olhei o maço, vi a quantidade de nicotina e dos outros componentes e, não vi grande diferença.
Então percebi o meu Pai. Eu estava a queimar um cigarro de um maço vermelho; a cor do meu “Benfica”. Era o outro, o azul, que eu queria queimar. Por isso senti a diferença.

Vou sair. Vou tentar encontrar o azul. Morrer sim, mas por causa do inimigo.
Como de costume, o meu Pai estava certo.

P.S.: Atenção, adoro pastéis de belém e não tenho vontade nenhuma de os queimar.
 

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Friday, February 8, 2008

Aznavour em Lisboa

No dia 23 deste mês, virá actuar a Lisboa, o “meu cantor”. Aquele que, desde há muitos anos é para mim, o melhor interprete da canção francesa. Ele compõe, ele faz letras, ele canta, ele vive tudo aquilo que faz. Nunca foi muito bonito, mas tem qualquer coisa de mágico naqueles olhos, brilhantes, sem sombras, apesar da idade. Qual o segredo deste francês, de ascendência arménia? Quando houve um tremor de terra devastador na Arménia, mesmo sentindo-se só francês, como afirmou, ajudou a recuperar escolas e hospitais, sobretudo, segundo afirmou, por causa das crianças.

Agora vem cá. E eu não vou ao Pavilhão Atlântico. Gostava de o ver, sim. Mas não num sítio onde eu já sei que me vou sentir mal. Vai haver palmas fora de tempo, coros desafinados, todo um ambiente que não tem nada comigo. Por isso, mon ami Charles, estarei contigo, mas aqui, no meu canto de sempre, ouvindo os teus discos, lembrando Paris e sonhando lá voltar um dia. Talvez tenha a sorte de tu dares nessa altura um outro concerto e, eu te vá ver.

Talvez em “Paris au moi d’Août”, nos encontremos em Montmartre, e bebamos juntos um café creme, enquanto algum acordionista, tocar “La Bohème”, só para nós.

Até um dia, Charles. Tu não gostas de dizer Adeus, eu também não.
   

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Thursday, February 7, 2008

Desterrada

 

 

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Tuesday, February 5, 2008

Serviço Público?

Terá sido serviço público, a série sobre o Regicídio, que a R.T.P. hoje acabou de transmitir? Será que inverter a História de Portugal é serviço público?

Conseguiram transformar assassinos em vítimas, em heróis, em figuras simpáticas. A maneira romântica, como foi tratada a personagem de Manuel Buiça, que mais não foi do que um terrorista cobarde que matou pelas costas, um ou dois homens, a quem nem deu tempo de se defenderem, é vergonhosa para não dizer porca. Por outro lado, só mostraram um rei de opereta, comilão, beberrão, femeeiro, sem se referirem às muitas qualidades que possuía. Fizeram do rei um palhaço, dos seus assassinos uns grandes heróis. Não é assim que se faz serviço público. Este deveria ser feito com a verdade e a isenção possíveis. E o fim? Mostram o funeral dos assassinos, mas o do rei e do príncipe, nem aparece. E há mais. Qual foi afinal, o papel de Aquilino? Porquê as cenas finais, em que ele aparece vestido como um senhor, e faz papel de conquistador barato de estrangeiras boazonas? Quem era afinal Aquilino? Um grande escritor, pelo menos para mim e, parece que também para muito mais pessoas. Ainda há bem pouco tempo o levaram para Santa Engrácia com grande pompa e circunstância. Por acaso, bem perto de São Vicente de Fora onde estão o rei e o príncipe, que ao que parece, ele estava disposto a ajudar a assassinar.

A minha esperança é que como de costume, a maioria dos espectadores estivesse a ver as muitas telenovelas, como de costume.

Já várias vezes me afirmei republicana e, como tal tenho a certeza que muitos outros republicanos, se sentiram tão revoltados como eu.

Senhores do serviço público: Não é assim que se ensina História. Talvez seja assim que se ganham audiências? Não creio. E o preço que pagam além de caro, é vergonhoso.

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Saturday, February 2, 2008

Grades invisíveis

 

 

Grades piores que as de ferro

                   São aquelas que não vemos
                   Atrás das quais nos escondemos
                   Para podermos pensar.
                   Pura ilusão, puro erro,
                   São grades sem consistência
                   Em que a nossa consciência
                   Está sempre, sempre a espreitar.
 
                   São grades que nos envolvem
                   De que nos queremos livrar,
                   Mas a chave tem-na a vida
                   E tem-na tão escondida
                   Que nunca a vamos achar.
                   E são tão fortes as grades
                   Que nem mesmo com serrote
                   As conseguimos serrar.                                            
 

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Friday, February 1, 2008

A morte inútil de um homem bom


Aguarela do Rei D. Carlos de Bragança.


Faz hoje cem anos que se cometeu um crime que, além de brutal e cobarde, não serviu para nada em termos políticos.
Mataram estupidamente, um homem bom, que teve a pouca sorte de nascer príncipe, mas que era além disso, um pintor dotado, um ictiólogo com provas dadas, um grande diplomata, reconhecido por todos os outros reis da Europa como possuidor de grande inteligência. Teria defeitos como toda a gente, mas seria isso suficiente para ter o fim que teve? Ainda conheci em Cascais, velhos de muitos anos, que se lhe referiam com respeito e contavam dele gestos de bondade para com muita gente. Foi valente até ao fim. Desprezou o carro fechado e seguro, proposto por João Franco, preferindo a caleche aberta, onde seguiu com a rainha e os dois filhos para a sua última e curta viagem. Foi baleado cobardemente na nuca, o que lhe provocou morte rápida. Mas os assassinos queriam mais. O príncipe D. Luís foi também morto e D. Manuel ficou ferido no braço. A rainha, nada sofreu fisicamente, mas por dentro deve ter ficado pior do que todos eles. Era mulher e mãe.
A brutalidade deste acto foi tal, que até os republicanos mais sinceros e honestos o repudiaram.
Cem anos depois, as livrarias estão cheias de livros, mais ou menos sérios, sobre a morte do rei. Algumas até põem cartazes a indicar o local certo dos livros. Fala-se em luto nacional, em minutos de silêncio e outras fantochadas mais. Que interesse tem isso agora? Quem sabe quem foi Carlos de Bragança?
Eu sou republicana. Tenho pena dos reis, dos príncipes, princesas e toda essa gente conhecida, porque não teem vida própria, não fazem senão aquilo que os outros querem.   
Há cem anos, no Terreiro do Paço, “A morte saiu à rua” correu o sangue de um homem que era rei e pintor. Anos depois, “A morte saiu à rua” correu o sangue de outro pintor: José Dias Coelho. O Zeca fez-lhe uns versos. Terminam assim: “Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu”. Peço desculpa ao Zeca por me servir dos versos dele, para falar do rei. O rei também era pintor. E ambos foram cobardemente assassinados. 

Posted by Maria in 18:46:49 | Permalink | Comments (5)