Fado errado
Hoje, porém, lembrei-me do fado por outras razões. Quando conheci o meu marido, já lá vão quarenta e tal anos, ele gostava de jazz, mergulho, pintava e acima de tudo detestava futebol. Não sabia nomes de futebolistas, irritava-se quando alguém falava em futebol, achava que era o desporto mais estúpido do mundo.
Quando casámos, às vezes em casa dos meus sogros, eles assistiam aos jogos pela televisão, ou ouviam os relatos na rádio. O antifutebolista primário, fugia a sete pés comigo e os putos a tiracolo, protestando contra a falta de gosto dos Pais.
Os anos passaram e, como diria Camões: ”Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. O antifutebulista primário que conheci, não perde um jogo de futebol, sabe os nomes dos jogadores, (às vezes chama-lhes outros), diz mal de quase todos, explica-lhes as jogadas, vibra com os golos. Isto tudo sentado no sofá. Mas pelo andar da carruagem, estou a vê-lo, um dia, num estádio, armado em treinador de bancada. Não sei é por que clube será, porque para ele deve ganhar o que jogar melhor.
“Fado errado”, porquê? Porque uma das coisas que me levou a gostar dele, foi o facto de não apanhar com as secas do futebol. Agora é isto que se vê: bola todos os dias.
Isto não impede que continue a gostar dele. “Agora quer eu queira, quer não queira, para o esquecer, é tarde”.
Se amanhã eu não escrever, é porque ele se fartou das minhas brincadeiras e me trancou o computador.
Até amanhã, se ele quiser.



