Cheias de novo
A chuva voltou a alagar Lisboa e arredores. Como de costume, Loures, Sacavém, Frielas, foram as vítimas eternas deste tipo de tragédias. Desta vez, Odivelas safou-se, mais ou menos. Em 1967, dois anos antes de eu para aqui vir viver, foi uma das que mais sofreu. Depois dessa houve várias a que assisti, várias que me isolaram de tudo e de todos. Felizmente para mim, só passei pelo isolamento. Mas ouvi o gritos, vi os rostos destorcidos pela dor, de quem em poucos minutos, perdeu o pouco que tinha, inclusivamente a casa, ou barraca, que lhe servia de abrigo. Assisti ao abalo de terra do Pico, São Jorge e Faial. Estava no Pico de férias e sei o que é viver uma tragédia. Aqui, tenho que dizer, que fiquei impressionada com a reacção dos açoreanos, que duas horas depois do grande abalo, já estavam a limpar ruas, escorar casas, procurar alimentos e as coisas mais necessárias, para os mais prejudicados. Assustados, sentindo as réplicas, mais ou menos fortes, com estremecimentos de medo, mas sem pararem de tentar diminuir o sofrimento dos que mais tinham sofrido.
Porque me lembro agora de tudo isto? Talvez porque estou revoltada com as notícias que nos são dadas, via televisão. Eu explico. As primeiras imagens de todos os telejornais, são as buscas infrutíferas dos dois desaparecidos em Belas e Frielas. É perfeitamente justo que sejam feitas, sobretudo pelas famílias para quem deve ser pavoroso ter uma morte sem corpo para enterrar. Mas não será mais importante falar daqueles que perderam casa, bens, recordações? O que estão a fazer por eles? Quem lhes vai restituir aquilo que perderam? Quem vai apagar das suas mentes os momentos de pânico que viveram?
Procurem os mortos, sim, mas não se esqueçam dos vivos.
Porque me lembro agora de tudo isto? Talvez porque estou revoltada com as notícias que nos são dadas, via televisão. Eu explico. As primeiras imagens de todos os telejornais, são as buscas infrutíferas dos dois desaparecidos em Belas e Frielas. É perfeitamente justo que sejam feitas, sobretudo pelas famílias para quem deve ser pavoroso ter uma morte sem corpo para enterrar. Mas não será mais importante falar daqueles que perderam casa, bens, recordações? O que estão a fazer por eles? Quem lhes vai restituir aquilo que perderam? Quem vai apagar das suas mentes os momentos de pânico que viveram?
Procurem os mortos, sim, mas não se esqueçam dos vivos.
O Marquês de Pombal, figura que me não é muito simpática, mas que teve algumas grandes obras, disse quando o terramoto abalou Lisboa: “Agora é cuidar dos vivos e enterrar os mortos”. É isso que vos digo senhores. Cuidem dos vivos e, se puderem, encontrem os mortos.