Mar
Mar que és ganha pão de tantos pescadores,
Que refrescas os corpos que o sol de Verão queimou
Que embalas o sono de quem junto de ti
Vem buscar o descanso que a vida lhe negou,
Que descansas os olhos de quem para ti olha
Que uniste tantos povos num laço sem ter fim,
Que foste a nossa glória, a nossa descoberta,
Que foste musa de poetas e pintores,
Inspirador de músicos, sonho de um Infante,
Consolador dos tristes, capa dos amantes,
Que beijas as areias e as lavas ternamente,
Que guardas no teu fundo tanto segredo triste,
Que nos dás tesouros de outros tempos,
Como tu és bom mar! Mas és tão tenebroso
Que quero gostar de ti e não consigo.
Mar sem fundo, ladrão da humanidade,
Que tudo queres, tudo roubas, tudo guardas
O verde das campinas, o azul puro do céu
Que à noite, prendes nos teus laços, o sol
Que tens a lua prisioneira dos seus raios
Que quiseste para ti os barcos e os homens
Quando ousam desafiar o teu poder.
Que guardas no teu fundo tesouros sem ter fim
Que tens todas as cores, que tens todos os cheiros,
Que nos deste por troca as lágrimas dos olhos
Que varas a terra como macho em cio,
Ferindo-a sem dó, comendo-a pouco a pouco
Como és malvado, mar! Mas és tão lindo,
Que te quero odiar e não consigo.
A poesia não presta mas é minha.

