Thursday, February 28, 2008

Mar

Mar que és ganha pão de tantos pescadores,
Que nos dás o peixe, o sal, as tuas algas,
Que refrescas os corpos que o sol de Verão queimou
Que embalas o sono de quem junto de ti
Vem buscar o descanso que a vida lhe negou,
Que descansas os olhos de quem para ti olha
Que uniste tantos povos num laço sem ter fim,
Que foste a nossa glória, a nossa descoberta,
Que foste musa de poetas e pintores,
Inspirador de músicos, sonho de um Infante,
Consolador dos tristes, capa dos amantes,
Que beijas as areias e as lavas ternamente,
Que guardas no teu fundo tanto segredo triste,
Que nos dás tesouros de outros tempos,
Como tu és bom mar! Mas és tão tenebroso
Que quero gostar de ti e não consigo.

Mar sem fundo, ladrão da humanidade,

Que tudo queres, tudo roubas, tudo guardas
O verde das campinas, o azul puro do céu
Que à noite, prendes nos teus laços, o sol
Que tens a lua prisioneira dos seus raios
Que quiseste para ti os barcos e os homens
Quando ousam desafiar o teu poder.
Que guardas no teu fundo tesouros sem ter fim
Que tens todas as cores, que tens todos os cheiros,
Que nos deste por troca as lágrimas dos olhos
Que varas a terra como macho em cio,
Ferindo-a sem dó, comendo-a pouco a pouco
Como és malvado, mar! Mas és tão lindo,
Que te quero odiar e não consigo.

A poesia não presta mas é minha.

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Wednesday, February 27, 2008

O meu Cão


Eu sei que todos os donos dizem o mesmo: “Só lhe falta falar”.
É meigo, amigo, mas às vezes passa-se e chega a ser agressivo. O veterinário diz que ele é nervoso, que reage assim porque se assusta. Mentira. Ele sai à dona.
Quando mo deram, era um cachorrinho com menos de um mês. Tive que o alimentar a biberon, com leite especial. Cabia-me nas duas mãos. Eu gosto muito de cães, mas este é mais que um cão, é um membro da família, pelo menos é o que ele pensa e, na verdade, nós também. Tem defeitos. Come como um desalmado, julga que ele é que manda e quando acha que o deixamos tempo demais sozinho em casa, espera que cheguemos e, mais hora, menos minuto, lavra o seu protesto, na forma sólida ou líquida, nos lugares mais impróprios. Compramo-lhe uma ração, que custa um balurdio, porque sofre do estômago, mas quando vai à rua, à mais pequena distracção, agarra-se à coisa mais nojenta que encontra e devora-a. E o mais engraçado ,é que a maior parte das vezes, não lhe faz mal.
É assim o meu Nabão. É assim que eu gosto dele. Porque a verdade, é que só lhe falta falar.
Até amanhã.
 
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Tuesday, February 26, 2008

Telenovelas e Revistas Cor de Rosa

Não gosto, nem de umas nem de outras. Isto não quer dizer que por vezes, não veja um ou outro episódio das primeiras e não me caia nas mãos uma das outras. São tantas, que é impossível ignorá-las por completo. Sei, portanto, mais ou menos do que tratam.
Ontem, por exemplo, vi uma das primeiras e fiquei completamente abismada. A maneira clara, sucinta e directa, como é contada a forma de fazer as segundas, é uma autêntica receita culinária.
“Toma-se de ponta uma pessoa mais ou menos conhecida.
Descobre-se, ou inventa-se qualquer facto menos feliz, ou menos correcto da sua vida.
Tiram-se, ou encontram-se algumas fotos ambíguas.
 Depois, é só aumentar os factos, pôr um título em letras bem grandes, acompanhado de fotografia na capa, legendas sugestivas nas fotografias e destacar algumas frases.
Está pronto o escândalo, ou o cozinhado conforme lhe queiram chamar.
Não precisa de forno, vem bem quente e geralmente dá vómitos.”
Contrariamente ao que possam pensar, não estou a brincar.
Mas o pior, é que alguns dos actores, que fazem os papéis, já foram “vítimas”, dessas mesmas revistas. Como conseguem representar tais papéis? Não se sentem mal?
O mais grave, é que há cada vez mais revistas dessas e vendem-se todas. E as telenovelas preenchem quase a totalidade dos canais ditos generalistas.
Antes futebol todos os dias. Nunca esperei dizer isto, mas repito: antes futebol, gaita!
Até amanhã.
 
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Monday, February 25, 2008

O que estão a fazer a Cascais?

Posted by Maria at 14:31:29 | Permalink | Comments (7)

Saturday, February 23, 2008

Saudades

Conheci apenas uma Avó. Os outros já tinham partido, muitos anos antes de eu nascer. Talvez por isso, Ela foi um dos meus ídolos. Era uma avó, como as de antigamente, que não tirou o luto pelo marido, usava um carrapito branco no alto da cabeça, não saía de casa sem chapéu, com um véu de tule a esconder-lhe os olhos, uns olhos verdes esmeralda, que viam até ao fundo das almas das pessoas, sobretudo da minha. Morreu aos  98 anos, completamente lúcida. Tão lúcida, que decidiu o momento de morrer.
Era muito inteligente, culta, senhora de uma ironia, que por vezes, raiava o sarcasmo.
Mas também, sabia contar histórias de fadas, de princesas, de grandes amores. Havia uma, em que, a avósinha morria. Eu chorava, gritando sempre a mesma frase: “as avósinhas não morrem”. Ela, para não me ver chorar, respondia-me: “pois é, filha, só nas histórias”. E eu acalmava, convencida que realmente, as avósinhas não morriam.
Até que, faz hoje 32 anos, descobri, que Ela me mentira. Senti dor, amargura, senti-me enganada. Passados tantos anos, a saudade é a mesma, a dor é a mesma.

Tive uma prima, que foi a minha melhor amiga. Aquela que partilhava todos os meus sonhos, os meus segredos, as minhas ilusões e desilusões. Perdia-a faz hoje 16 anos, no mesmo dia e quase à mesma hora que a nossa Avósinha. É um dia de tristeza, de luto, para mim. Não consigo dizer mais nada. Só saberia falar das duas. Continuo a amá-las, a senti-las ao mesmo tempo, tão perto e tão longe. Um beijo enorme para as duas, e a eterna saudade, de quem nunca vos esquece.
Maria

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Thursday, February 21, 2008

A Cidade de Deus

Vi há dias o filme “A Cidade de Deus” do realizador brasileiro, Fernando Meirelles.
Já tinha visto “O Fiel Jardineiro” que me deixou bastante impressionada. Quando comecei a ver este, estive quase a desistir. Logo nas primeiras cenas dá para ver que é um daqueles filmes que me faz mal. Continuei a vê-lo, pensando de vez em quando, que não conseguia aguentar tanta violência. Quando vi crianças da idade dos meus netos, empunharem pistolas de verdade e matarem pessoas a sangue frio, fiquei tão apavorada, que em vez de desligar a televisão, fiquei literalmente agarrada ao écran até ao fim. O meu corpo tremia de medo, o meu coração desfazia-se de horror. Mas tive de ver até ao fim. Tive de chorar de pena, por aqueles que morreram e pelos que matavam. O que poderá levar crianças àquilo? Que mundo é este em que vivemos?
Dias antes, tinham morrido dois garotos, nos arredores de Lisboa, por causa de um chapéu, dizem. Foram julgados os rapazes do Porto que provocaram a morte a um desgraçado travesti. Já não chega a violência dos adultos, que põem o mundo a ferro e fogo, por ganância, sede de poder, brutalidade gratuita? Não são suficientes os desastres naturais (às vezes ajudados pelas asneiras dos homens)?
O filme é extremamente bem feito, o realizador muito bom, mas penso que nunca mais vou ver nada dele. Eu sei que este é o mundo que temos.
Nasci no fim da 2ª Grande Guerra. Li muito sobre ela. Disseram-me que era “A guerra para acabar com todas as guerras” e, eu sonhadoramente, acreditei.
Agora, que vejo todos os dias, atentados contra inocentes, por todo o mundo, fome provocada por lutas que não entendo, não gosto deste mundo. Não é o mundo que eu sonhei para os meus filhos, os meus netos e todos os jovens.
Algum dia haverá Paz? Algum dia terminará esta sensação de medo e de insegurança em que vivemos? Eu já perdi a esperança, mesmo assim, lembro-me de um poema de João de Deus, que termina assim:
                                     Que quem já é pecador
                                     Sofra tormentos ,enfim.
                                     Mas as crianças, Senhor
                                     Porque lhes dais tanta dor,
                                     Porque padecem assim?      
 Até amanhã.
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Tuesday, February 19, 2008

Cheias de novo

A chuva voltou a alagar Lisboa e arredores. Como de costume, Loures, Sacavém, Frielas, foram as vítimas eternas deste tipo de tragédias. Desta vez, Odivelas safou-se, mais ou menos. Em 1967, dois anos antes de eu para aqui vir viver, foi uma das que mais sofreu. Depois dessa houve várias a que assisti, várias que me isolaram de tudo e de todos. Felizmente para mim, só passei pelo isolamento. Mas ouvi o gritos, vi os rostos destorcidos pela dor, de quem em poucos minutos, perdeu o pouco que tinha, inclusivamente a casa, ou barraca, que lhe servia de abrigo. Assisti ao abalo de terra do Pico, São Jorge e Faial. Estava no Pico de férias e sei o que é viver uma tragédia. Aqui, tenho que dizer, que fiquei impressionada com a reacção dos açoreanos, que duas horas depois do grande abalo, já estavam a limpar ruas, escorar casas, procurar alimentos e as coisas mais necessárias, para os mais prejudicados. Assustados, sentindo as réplicas, mais ou menos fortes, com estremecimentos de medo, mas sem pararem de tentar diminuir o sofrimento dos que mais tinham sofrido.
Porque me lembro agora de tudo isto? Talvez porque estou revoltada com as notícias que nos são dadas, via televisão. Eu explico. As primeiras imagens de todos os telejornais, são as buscas infrutíferas dos dois desaparecidos em Belas e Frielas. É perfeitamente justo que sejam feitas, sobretudo pelas famílias para quem deve ser pavoroso ter uma morte sem corpo para enterrar. Mas não será mais importante falar daqueles que perderam casa, bens, recordações? O que estão a fazer por eles? Quem lhes vai restituir aquilo que perderam? Quem vai apagar das suas mentes os momentos de pânico que viveram?
Procurem os mortos, sim, mas não se esqueçam dos vivos.

O Marquês de Pombal, figura que me não é muito simpática, mas que teve algumas grandes obras, disse quando o terramoto abalou Lisboa: “Agora é cuidar dos vivos e enterrar os mortos”. É isso que vos digo senhores. Cuidem dos vivos e, se puderem, encontrem os mortos.

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Sunday, February 17, 2008

Dia de chuva

Chove, está um dia cinzento, um daqueles dias em que me sinto tristemente triste. Foi sempre assim. Lembro-me, de alguém da minha terra que dizia: “Eu sei que a chuva faz bem aos algumes, mas eu embirro ca chuva” (os erros são de propósito). Não gosto nada dela.
Ontem, dia de aniversário do meu marido, havia sol na rua e sol dentro de mim. Tinha os meus filhos, o meu neto, o meu cunhado, comigo. A única nuvem foi a ausência da minha filha, da minha neta, do Pedro. Passámos um dia simples, mas feliz.
Hoje chove, e lembrei-me de ti, Carla Mar, gostava de me encolher no meu casulo, e provavelmente, é o que vou fazer. (Ver foto). Não sei se vou ler, ver um filme, ou simplesmente dormir. Carla mar descobri, acho, (Luas de mim), gostei, vi o teu perfil e apesar da diferença de idade, penso que temos algumas coisas em comum.
Acho que a solução, é mesmo encasular-me, juntamente com o meu canito, que se chama” Nabão”, como o rio da minha terra.
Decididamente a chuva, não me inspira nada, o melhor é estar quieta. Antes, porém, quero dizer ao meu marido, que ao fim de todos estes anos, continuo a amá-lo como quando o conheci. Já que ontem não lhe dei os parabéns aqui, limito-me a perguntar-lhe: Passaste um bom dia de anos, meu amor? Espero que sim.
 

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Friday, February 15, 2008

A Princesa

Já aqui disse por várias vezes que gosto muito de música brasileira. Gosto de quase todos os cantores da “Bossa Nova”, mas tenho os meus preferidos. Há três que são os meus “Eleitos”: João Gilberto, Chico Buarque, e Elis Regina. Qualquer deles mexe comigo, com a minha sensibilidade. Mas ela, talvez por ser mulher, talvez por cantar como eu gostaria de cantar, é sem dúvida a minha predilecta.
Chamavam-lhe “A Pimentinha” e era-o mesmo. Mas quando cantava canções românticas, ela era doce, terna, trágica. Consigo ouvi-la horas, qualquer que seja o meu estado de alma. Penso que gosto de tudo o que canta, mas há algumas canções, que são as “minhas canções”: Romaria, Como os nossos pais, O morro não tem vez, Casa de Campo, Aquarela do Brasil, e.t.c.. O melhor é ficar por aqui.
Tempos atrás, apareceu a cantar, uma filha dela. Impressionou-me a parecença física, vocal e até a alegria, tão semelhantes à mãe. Não igual, ela própria não o quer, mas parecida. Hoje estive a tarde toda a ouvir o Álbum “Maria Rita”. Gostei muito. Quero ouvir mais. Vale a pena.
Aqui há uns anos, num jornal que já acabou, alguém que conheço escreveu a propósito de um concerto da Simone (a brasileira, não a nossa), um artigo, cujo título era ”Depois de Elis Regina, só Simone Rainha”. Belo artigo por sinal. Mas agora gostaria que ele escrevesse: “Depois de Elis Regina, só Maria Rita Princesa”.

Até um dia destes.
 

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Thursday, February 14, 2008

Dia dos namorados

Este dia de São Valentim é mais uma das muitas importações que ultimamente teem aparecido neste jardim à beira mar plantado, que adora tudo o que é estrangeiro em detrimento daquilo que é verdadeiramente nosso. Não tenho nada contra o santinho, que até parece que protegeu alguns namorados lá da terra dele. Mas nós sempre tivemos o Santo António, casamenteiro, nosso, nascido em Lisboa, em 1191 ou 1192, com o nome de Fernando Bulhões, falecido em Pádua a 13 de junho de 1231, sempre foi considerado o protector dos namorados, que lhe faziam pedidos e promessas, para conseguirem concretizar o seu amor.
Existe outro santo português, São Gonçalo de Amarante, nascido em Tagilde, perto de Vizela em data incerta, falecido em Amarante a 10 de Janeiro de 1262. Este tem a particularidade de ser conhecido como “casamenteiro das velhas”. Há até uma quadra muito antiga em que as moças se queixam:
                                                       “São Gonçalo de Amarante
                                                        Casamenteiro das velhas.
                                                        Porque não casas as moças,
                                                        Que mal te fizeram elas?”
Com dois Santos portugueses, protectores dos namorados de todas as idades, porquê este dia dedicado a um estrangeiro?
Terá isto a ver com o facto de há uns anos ter aparecido o “Dia das bruxas”?

Nós tínhamos “O pão por Deus”.

Por este andar, qualquer dia, estamos a festejar “O Dia de Acção de Graças” dos Americanos.
Será que isto é tudo festa ou, consumismo, puro e duro?
As montras, desde Novembro, que nos enchem os olhos com os mais variados e inúteis artigos. Qual é o próximo dia a festejar? Se não existe, invente-se. Os comerciantes teem de viver coitados e afinal, os consumidores lá vão arranjando uns trocos para gastar em mais qualquer coisinha.
Para mim, hoje é dia de festa. A minha Neta faz 12 anos. Isso sim, é que é um dia importante.
Parabéns meu lindo “Botão de Rosa”. Tenho pena de não estar contigo.
Beijinhos da avó, que gosta muito de ti.
 

Posted by Maria at 19:02:19 | Permalink | Comments (7)