Wednesday, January 30, 2008

A minha velha casa


Esta era a casa onde passei parte da minha infância e adolescência. Já não existe senão em fotografias e na minha memória. Quando eu nasci já era velha de muitos anos, mas ainda fazia que quem lhe passava ao pé, a olhasse duas vezes. Eu, lá de dentro, olhava mais para fora, para a Ria larga e esverdeada de dia, sulcada pelos belos moliceiros, mercantéis e pequenas bateiras. Mas o verdadeiro deslumbramento era à noite. Então, a Ria tornava-se um espelho em que em noites de lua cheia, ela se reflectia, iluminando tudo em volta com uma luz doce e serena. O silêncio só era cortado pelos saltos das tainhas e pelo vento nos ramos dos pinheiros. Não sei se tenho saudades, se a lembrança é tão forte que não mas deixa sentir.
Alguém, que muito amei, fez um dia um pequeno poema que a retrata. Sei que ele gostaria que aqui o lembrasse:
 
Oh minha Ria,
Tu tens contigo o condão
De prender o coração
A quem te visite um dia.
O teu luar
De luz branca, prateada
Faz-nos lembrar o olhar
Da mais terna namorada.
 
Águas serenas
Brisas amenas
Ria sem par
Ria tão bela
Linda donzela
De enfeitiçar.
Ria de Ovar
Sente-se honrada e ditosa
Por ser Ria Portuguesa
De todas, a mais formosa.
 
Manuel Colares Pinto (vareiro de coração)
 
Era assim a nossa Ria. É assim que a quero lembrar, assim como quero lembrar a nossa velha casa e todos os seus habitantes.
Hoje a minha pobre escrita é dedicada a todos os vareiros, em especial aos muitos amigos que ainda lá tenho. É pouco, eu sei, mas tem muito amor lá dentro.
 

Posted by Maria in 11:16:03
Comments

5 Responses

  1. Anonymous says:

    Lindo!
    Nemy

  2. Anonymous says:

    Nemy
    Obrigada. Traz-me lindas recordações, sim.
    O resto é uma velha casa, acompanhada de uma triste prosa.
    Maria

  3. Anonymous says:

    Que bonita!
    Desde muito pequenino que oiço contar as histórias vividas nesta casa e principalmente na Quinta onde ela estava. Tenho ideia de a ter visto ou algo que restava dela já há muitos anos e de muito longe. É estranho que sinta tanta pena de não a ter a poder conhecer e dar a conhecer aos meus quando nunca lá estive sequer!
    Olho para a foto e já estou a perguntar onde será que dormia a minha mãe, onde é a cozinha, a fábrica da caseína…
    Há mais ???
    Beijinhos,
    João

  4. Anonymous says:

    Fizeste-me chorar. Sim há mais algumas.
    Qualquer dia mostro. Por acaso, a janela do meu quarto vê-se nesta: é a segunda de lado.
    Beijinhos
    Maria

  5. Anonymous says:

    Estive a ver com o Google Earth onde ficaria a Quinta. Nas coordenadas 40º51′11 N 8º39′31 W encontrei uma foto com o título “Carregal” que mostra uma paisagem e uma casa lindas. Não deve ficar muito longe da tua casa!
    beijinhos para os dois,
    João

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