Wednesday, January 30, 2008

A minha velha casa


Esta era a casa onde passei parte da minha infância e adolescência. Já não existe senão em fotografias e na minha memória. Quando eu nasci já era velha de muitos anos, mas ainda fazia que quem lhe passava ao pé, a olhasse duas vezes. Eu, lá de dentro, olhava mais para fora, para a Ria larga e esverdeada de dia, sulcada pelos belos moliceiros, mercantéis e pequenas bateiras. Mas o verdadeiro deslumbramento era à noite. Então, a Ria tornava-se um espelho em que em noites de lua cheia, ela se reflectia, iluminando tudo em volta com uma luz doce e serena. O silêncio só era cortado pelos saltos das tainhas e pelo vento nos ramos dos pinheiros. Não sei se tenho saudades, se a lembrança é tão forte que não mas deixa sentir.
Alguém, que muito amei, fez um dia um pequeno poema que a retrata. Sei que ele gostaria que aqui o lembrasse:
 
Oh minha Ria,
Tu tens contigo o condão
De prender o coração
A quem te visite um dia.
O teu luar
De luz branca, prateada
Faz-nos lembrar o olhar
Da mais terna namorada.
 
Águas serenas
Brisas amenas
Ria sem par
Ria tão bela
Linda donzela
De enfeitiçar.
Ria de Ovar
Sente-se honrada e ditosa
Por ser Ria Portuguesa
De todas, a mais formosa.
 
Manuel Colares Pinto (vareiro de coração)
 
Era assim a nossa Ria. É assim que a quero lembrar, assim como quero lembrar a nossa velha casa e todos os seus habitantes.
Hoje a minha pobre escrita é dedicada a todos os vareiros, em especial aos muitos amigos que ainda lá tenho. É pouco, eu sei, mas tem muito amor lá dentro.
 

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Sunday, January 27, 2008

Recordar Mário Viegas

Acabei há pouco de ver um programa sobre Mário Viegas. Sempre o admirei como declamador, actor de teatro e cinema e como homem. Era livre, corajoso, capaz de assumir todas as suas atitudes.

Filho de boas famílias, não teve medo de se mostrar adepto de uma esquerda quase anarquista.

A sua figura frágil,  parecia à primeira vista, que não o deixaria interpretar determinados papéis e no entanto fê-los e de que maneira. No “Kilas, o mau da fita”, tem ele alguns dos seus momentos mais altos. Aquele rosto de menino tinha a faculdade de mudar de expressão com uma facilidade espantosa. No “Sem sombra de pecado” a mesma coisa.

No teatro conheci-o mal, mas o que dele disseram João Lourenço e Carlos Avilez, juntamente com os excertos transmitidos, mostraram um grande comediante.

Como declamador,  para mim nunca houve ninguém como ele. Ora cínico e brutal, ora trocista, ora terno e sensível. Que Villaret  me perdoe, mas nem ele me fez amar tanto a poesia.

Segundo vi, deixou um grande espólio. Infelizmente, não deixou a ninguém a grande cultura que tinha.

Morreu cedo, mas viveu como quis e foi feliz. Teve a coragem de assumir que tinha SIDA numa época em que quase mais ninguém o admitia.

Lamento que tenha partido, mas sinto-me grata por ele ter vivido uma vida plena, embora curta. Ficam-me os filmes, os discos e a memória daquele rosto de menino maroto.

Até um dia Kilas. Obrigada por teres feito parte da minha fraca cultura.

     

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Friday, January 25, 2008

A vitória do Benfica

No tempo em que o meu Benfica ganhava, teve uma vitória particularmente saborosa  num jogo com o Real Madrid. Em boa parte, essa vitória deveu-se ao grande Eusébio. Hoje, quando vi que ele fazia anos, lembrei-me dessa noite gloriosa.
Na altura ainda não tínhamos televisão. Estavam na casa dos meus Pais a passar férias a minha Avó e a minha prima Margarida. Dormíamos as duas nas águas furtadas. Lá estávamos muito mais à vontade para conversar, fumar um cigarro e ouvir a televisão do café em frente. Sobre a cama, havia uma janela que abria para cima e se prendia com um ferro. Geralmente, abriamo-la para entrar ar, sair o fumo e assim evitar que o nariz sensível da minha Mãe desse pelo cheiro a tabaco.
Nessa noite fizemos o mesmo. Além disso, ouvimos e festejámos a grande festa Benfiquista. De repente, uma carga de água desabou em cima do nosso entusiasmo e de nós. A janela, sempre dócil, naquele dia resolveu não fechar. Quando a chuva parou, parecíamos dois pintos. Havia água por todo o lado, sobretudo sobre a cama. Passámos a noite no único canto seco do quarto, embrulhadas num cobertor, milagrosamente salvo do dilúvio. No dia seguinte, estávamos as duas com duas valentes constipações. Nunca ninguém, soube porquê.
Por acaso, estou com uma bruta constipação. Pode ser que amanhã o nosso Pantera tenha a prenda que pediu: a vitória para o Benfica. Parabéns Eusébio, rapaz do meu tempo. Que contes muitos e que eu veja. 
 

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Thursday, January 24, 2008

Serões da Província

Este é o nome de um dos livros do escritor Júlio Dinis, hoje tão esquecido.
Lembrei-me, há dias de outros serões, não tão antigos, mas já velhos de alguns anos.
Quando eu nasci, não havia televisão em Portugal. Havia a velha telefonia, (rádio) e era em algumas casas. Assim, era necessário ocupar de alguma forma o espaço entre o jantar e a hora de ir dormir. Na casa onde nasci, a luz ainda era de 110, logo, fraquinha. O meu Pai, tentava ouvir as notícias da Emissora Nacional, sem grande sucesso, pois ou falhava a luz ou, a telefonia desatava a fazer estranhos ruídos, com algumas sílabas pelo meio. No Inverno, à volta da braseira, no Verão, frente à janela aberta sobre a nespereira do vizinho, conversávamos, aprendíamos História, ouvíamos velhas histórias de família. Entretanto, a minha Mãe fazia renda, tratava da nossa roupa e da de casa, com aquelas mãos frágeis e lindas, mais feitas para admirar do que trabalhar. Às vezes, Ela cantava velhas canções, acompanhada pelo meu irmão. Outras noites vinham as vizinhas e então jogavam as cartas, falava-se da vida, (própria e alheia). As horas passavam e depois do chá e dos bolinhos, caminha, que era parte quente, porque no dia seguinte era dia de trabalho para uns e, de escola para outros.
Quem diria que passados sessenta anos, fica tudo furioso quando falta a luz ou os programas de televisão não prestam? Eu tenho saudades desses serões de antigamente. Será que agora seria capaz de viver assim? Quem sabe. É que eu também estou diferente.

“Até amanhã, se Deus quiser”. Era assim que antigamente nos despedíamos.

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Wednesday, January 23, 2008

Marquise ou mezanine?

Desde que me conheço que oiço falar em marquises. Quando havia um terraço ou varanda e as pessoas tinham necessidade de mais um compartimento, juntavam umas coroas e com caixilhos de madeira e mais tarde de metal, vidros e mais alguns materiais, faziam uma marquise. Ao princípio punham-lhe umas cortinas, mais ou menos vistosas, uns vasos com flores, uma cadeira de verga e, ficava um mimo. A pouco e pouco iam-se despejando para a marquise as coisas que começavam a sobrar no resto da casa. Passou a ser a casa das sobras, o sítio onde se secava a roupa em dias de chuva. No meu bairro há muitas. Eu também tenho uma. Até aqui tudo bem. Cada um desenrasca-se como pode.
Agora vem a novidade: em algumas revistas de decoração começaram a aparecer as mezanines.
Lindas, arrumadas, com gaiolas de passarinhos a fingir e frondosas plantas de plástico. Não gosto, mas não me faz diferença.
O pior, é que comecei a ouvir as minhas vizinhas a falar nas suas mezanines. Procurei dar
umas espreitadelas e vi que as mezanines continuam iguais às marquises. Móveis velhos,
roupa a enxugar, enfim.
Quer lhe chamem marquise ou mezanine são as mesmas.
A minha, vai continuar a chamar-se simplesmente marquise. Já estou velha para mudanças.
Portanto: marquise é marquise; casa de banho é casa de banho; casa de jantar é casa de
jantar; sala é sala; quarto é quarto; e cozinha é cozinha, mesmo que alguém se lembre de
lhe chamar laboratório culinário. Sou mesmo antiga, não sou?.
Boa noite

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Monday, January 21, 2008

O que é para mim a música

Motivo de polémica entre mim e o meu marido. Há quarenta e tal anos que discutimos este tema sem chegarmos a nenhum acordo. Às vezes, lá calha gostarmos de algumas em comum. Ele gosta de música barroca e eu também. Mesmo assim, ele gosta de Bach, eu prefiro Vivaldi. Eu gosto de ópera, ele detesta. Ele adora jazz, eu suporto unicamente o jazz tradicional em doses moderadas. Eu vibro com tangos, ele abomina-os. Gosto de fado e ele suporta alguns. Amo toda a música francesa, ele ouve-a. A única que nos agrada aos dois é a brasileira. Aí estamos sempre de acordo.

Democraticamente, ele ouve a música dele, quando quer, eu ouço a minha quando estou só. Ele gosta da música, eu geralmente ligo ao poema. Talvez porque as palavras tenham uma importância muito maior para mim do que para ele. Quem nos conhece sabe disto. Eu falo pelos cotovelos, ele fala pouco, às vezes demasiado pouco.

Que eu saiba, isto nunca foi motivo para divórcio. E mesmo com estes desacordos musicais, continuamos juntos e com muitas outras coisas que nos ligam.

Por exemplo: A carga de pancada (verbal, claro)  que eu vou levar, depois dele ler isto.

“Adios muchachos”. Amanhã vou “Volver”, se “Uno” me deixar viva. 

 

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Saturday, January 19, 2008

A saudade é arrumar o quarto…

Desde que cheguei do funeral do filho da minha vizinha, que esta frase me martela a cabeça.
As palavras, que entre lágrimas trocámos, foram recordações de um passado já longínquo.  Chegamos à conclusão, que apesar das dificuldades e problemas que ambas tínhamos, tinha sido a  época mais feliz das nossas vidas. É sempre assim. Quando somos felizes não sabemos. Quando descobrimos, já não pudemos voltar atrás.
Agora, que tudo acabou para ele, começa o calvário da Mãe.
Por isso me lembrei dos versos do Chico Buarque: “Pedaço de Mim”
 
Oh pedaço de mim
Oh metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
 
Deve ser isto que a Mãe vai sentir. Eu não sou sequer capaz de imaginar.
Meus filhos amo-vos muito. Nunca o esqueçam.
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Friday, January 18, 2008

Acidente na A1

Vi na televisão a notícia de mais um acidente na A1. Impressionou-me, como sempre, sobretudo por as vítimas serem tão jovens e um deles ter morrido.

Confesso, que procurei esquecer. No outro dia de manhã, entrou-me pela casa dentro, a informação de que a vítima mortal, era meu vizinho. Conheci-o ainda na barriga da Mãe, vi-o crescer, brincou com os meus filhos, via-o quase todos os dias a passear a cadelita, que adorava. Era, dos três irmãos o único que vivia com a Mãe, já viúva.

Há poucos dias , em conversa de mães e vizinhas, muito antigas, comentava ela que o seu filho era o  seu grande apoio.

E agora, Mila?

Quando hoje a vi, não soube o que dizer. Abraçamo-nos, chorámos, mais nada.

Que se pode dizer a uma Mãe que acabou de perder o filho? Eu não sei. Felizmente nunca passei por isso e nem sequer consigo imaginar a dor pavorosa que deve ser.

O natural é que os pais vão primeiro. Serem os filhos a preceder-nos, é contra natura.

Fazia ontem 34 anos. Chamava-se António Luís. Que mais dizer?

Adeus, menino que vi crescer. Adeus, companheiro de infância dos meus filhos.

Vou ter saudades de te ver na rua com a Bianca.

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Tuesday, January 15, 2008

Sou fumadora e confesso

Há muitos anos, por brincadeira,  por tentativa de imitar os mais velhos, porque me convenci que o facto de meter um cigarro na boca me libertava de alguns dos muitos preconceitos existentes na minha geração, comecei a fumar. Primeiro, fumava um cigarro de vez em quando, depois a pouco e pouco, por vício. Várias vezes deixei de fumar, várias vezes recomecei. Durante o tempo de gravidez dos meus três filhos cortei mesmo com o tabaco. Dos três, só a minha filha fuma. A minha nora conseguiu deixar de fumar. O meu marido e o meu pai também. Pelos vistos é possível. Isto, se a vontade for muita. Eu não quero deixar de fumar, esta é a verdade. Não é apenas vicio, é mais do que isso. O cigarro é a rolha com que tapo a boca antes de falar demais, é o companheiro das horas em que não consigo dormir, é o calmante dos momentos de nervosismo. Por princípio não fumo ao pé de crianças, pessoas que não fumam, ou em sítios fechados. Nem na minha casa. Por tudo isto, acho justa a lei do tabaco. No entanto, esta caça às bruxas aos fumadores, já começa a tornar-se caricata. Se dão seringas e drogas aos drogados, se os alcoólicos podem continuar a embebedar-se à vontade, deixem lá os fumadores em paz, desde que respeitem a lei.

É que afinal de contas, nós pagamos o tabaco que fumamos e parece que isso até dá lucro ao Estado.

Se puderem deixem de fumar. Parece que faz mesmo mal.

 

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Saturday, January 12, 2008

O rapazinho da Lucília

Teria eu uns quinze anos, o meu Pai comprou um disco de Carlos do Carmo. Já não me recordo qual, mas foi de certeza, um dos primeiros. Pô-lo no pick-up. Eu peguei na capa e fiquei a olhar para o rosto do jovem e já belo fadista. Apaixonei-me imediatamente, perdidamente, por pouco tempo, claro. Nesse tempo as minhas paixões eram fortes e curtas.
Quando o disco acabou, o meu Pai comentou: “o rapazinho faz-se, mas ainda tem muito que aprender com a Mãe”. Eu ainda a olhar a capa, retorqui: “tomara ela”. O meu Pai olhou-me pasmado. Então tu, sabes as letras e as músicas de todos os fados da Lucília, levas o dia a cantá-los e agora sais-te com essa? Era verdade. Eu adorava a D.Lucília, sabia todos os seus fados e levava os dias a assassiná-los. Não podia era dizer ao meu Pai que o comentário dizia respeito, não ao fadista, mas à capa do disco, por me arriscar a levar um belo tabefe.
Passei a ouvir a toda a hora, “o rapazinho da Lucília”. Apaixonei-me então, por aquela voz, a um tempo forte e doce, que dizia frases de amor, de fado, de saudade. À medida que ambos crescemos, continuei a admirá-lo cada vez mais. Para o meu Pai, deixou de ser o rapazinho, sem deixar de ser o filho da Lucília.
Já ambos partiram, o meu Pai e a Mãe do Carlos. Ele continua a cantar, cada vez melhor, eu continuo à espera de cada disco que grava. Quando ouvi “À Noite”, reconheci todas as músicas, mesmo vestidas de novas letras. São todas lindas. Mas há duas que me tocam muito: “Lisboa Oxalá” e “Enredo”.
Chamam-lhe “O Charmoso”. Não sei quem lhe pôs o nome, mas está certo.
Carlos, continua a cantar. Eu vou continuar a ouvir. E mesmo sem ter já quinze anos, vou continuar a olhar a capa do disco. Só para ter a certeza que ao fim de tantos anos, a minha paixão de uns dias, teve razão de ser.
  
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