Saturday, November 1, 2008

Não é adeus, é até já

Não me vou embora, só mudei de “bairro”. Este, já me deu problemas de sobra.

Assim, “Adeus Alcatruzes da Roda”, “Olá Alcatruzes da Roda”. Nada mudou. A Maria é a mesma, os amigos são os mesmos, as histórias iguais.

Só a “casa” mudou. Como ainda estou em arrumações, hoje só vos quero dar a nova morada: http://alcatruzesdaroda.blogspot.com/

Esta série, termina aqui. A nova segue no endereço acima.

Até um dia destes.

Posted by Maria at 15:13:10 | Permalink | Comments (3)

Wednesday, October 29, 2008

Regresso

Perto daqui, vivi todas as férias da minha infância e adolescência. A Ria de Ovar, é uma lembrança doce e triste.

Hoje, vi este quadro de Catherine Labey e, tudo me veio à memória: cores, cheiros, ruídos, imagens. Lembrei-me, de pessoas, de bichos, de dias de outono, em que tudo se aquietava, lentamente, até a noite cair. Da Ria, subia uma neblina ténue, das casas pequeninas subia um fuminho, havia no ar um cheiro a resina e lenha a arder. Os homens, as mulheres e as crianças, recolhiam a casa, depois de um dia inteiro nos campos. O gado, já dormia. Os carros de bois, já não chiavam, como durante o dia. O rumor leve, dos Moliceiros, quase não se ouvia.

Dentro de casa, o calor da lareira, o aroma da comida e novamente o cheiro acre da resina, das pinhas, da lenha.

E da janela do meu quarto, olhava a Ria, tranquila, prateada, varada pelos saltos das tainhas. De longe em longe, umas palavras soltas, o som metálico dos tachos no fogão. Depois, uma voz alta que dizia: “a ceia está na mesa!”.

Parava de sonhar e olhar a Ria. Descia a escada escura e, entrava na sala iluminada e quente da lareira.

Foi tudo isto que voltei a ver, olhando este quadro. Hoje tudo é diferente. Mas para mim, é tudo sempre igual. Guardo tudo avidamente, na memória e na saudade imensa, de um tempo em que era fácil ser feliz.

Por mais que faça, é sempre o passado que, volta a dominar-me o pensamento.

Obrigada, Catherine Labey. O seu quadro, deu-me hoje uns momentos felizes.

Não sei viver neste mundo que não entendo.

Até um dia destes. Aonde a saudade me levar. 

Posted by Maria at 12:53:41 | Permalink | Comments (9)

Monday, October 27, 2008

De volta a Miguel Torga

Há dias assim. Procuro fugir aos pensamentos, às lembranças, às preocupações. Preciso de me evadir, para um mundo diferente.

O destino é sempre o mesmo: Um livro de poesia. Às vezes um, outras vezes outro, dos nossos muitos poetas. Gosto muito, de muitos.

Cada um tem o seu lugar, o seu momento. Há, um especial: Miguel Torga. Não tem dia, nem hora. Dá-me sempre resposta, dá-me sempre prazer. Hoje, acordei com a ideia fixa, dos “Poemas Ibéricos”.

Abri o livro ao acaso. E, por acaso, num dos meus poemas preferidos: ”O Príncipe Perfeito”. Sendo, D. João II, o meu rei, voltei a ler o poema, uma, duas, três vezes. Não resisti ao desejo, de o partilhar convosco. Por isso, de Miguel Torga, “O Príncipe Perfeito”.

 

Um Príncipe Perfeito em Portugal,

Terra da imperfeição!

Que excessivo perdão

Pode ter quem é rei!

Na bainha do tempo, até o punhal

É uma arma leal!

Assim nela coubesse a alma que sujei…

 

Perfeito, eu! Perfeito

Um rei que desposava no seu leito

O luto incestuoso da rainha!

Perfeito, eu, que tinha

Um herdeiro da esfera adivinhada,

E o vi morrer, humano,

Com asas de exaurido pelicano,

Às portas da aventura começada!

 

Perfeito, eu! Perfeito

Quem viu agonizar dentro do peito

A grandeza da vida e quanto fez por ela!

Incapaz, a cobarde caravela

Que mandei ao seu último destino,

Desatado o nó cego, masculino,

Que no sonho enlaçava

A soberba cintura de Castela,

Que perfeição no mundo me ficava?

 

Pensei, lutei, matei – fiz quanto pude,

Mas em vão.

A quem Deus não ajude,

Tudo são Índias de desilusão.

 

É este, O Príncipe Perfeito, de Torga. É este, o meu Príncipe “Imperfeito” talvez, mas humano. Um rei que, tudo fez pelos Descobrimentos, que tudo deixou tratado, resolvido, para outro, mais “Venturoso”, colher a glória e os frutos. Não seria perfeito, mas a rainha de Castela que, o odiava e admirava, chamou-lhe: “El Hombre”.

Que elogio maior, lhe poderia ter feito?

E assim, Humanamente Imperfeito, foi o nosso maior e mais inteligente rei.

Até um dia destes.

  

Posted by Maria at 16:59:07 | Permalink | Comments (2)

Sunday, October 26, 2008

Diz que é uma espécie de sáurio

Antes de mais nada, tenho que, fazer dois avisos: 1º Isto vai ser longo; 2º Talvez, seja a última vez que escrevo. A minha vida depois do que vou contar, corre sério risco.

Posto isto, passo ao cartão de identidade da simpática heroína.

Classe: Reptilia

Ordem: Squamata

Subordem: Sauria

Família: Gekkonidae

Nome: Hemidactylus frenatus

Nome comum: Osga ou Jeco

A foto vem acima (como podem ver  é um animalzinho, podre de belo).

Toda a minha vida detestei, animais rastejantes, ou seja, répteis. Não é propriamente medo, é nojo, é um arrepio que, me sobe pela espinha, chega à garganta e, sai sob a forma de grito. Dantes era pior. Ficava paralisada, não sabia o que fazer. 

Tenho a “sorte”, de viver no último andar de um prédio e, ter uma varanda. No telhado, moram “elas”, as osgas. De vez em quando, fazem umas incursões, na parede exterior, para apanhar sol.

O meu marido e os meus filhos, adoram-nas. Fotografam-nas, observam-nas, dizem que elas são lindas, inteligentes, tentam livrá-las de todos os perigos, (empregada, vassoura, ou outros).

Eu, que ainda tenho algum amor à vida, depois de gritar, limito-me a esperar que, me livrem da presença do “simpático” animal.

Os meus filhos, há uns anos, tiveram duas, a passar o inverno num aquário fechado, no quarto deles. Alimentavam-nas, falavam com elas e… limpavam o quarto que se lixavam, porque eu não entrava lá.

Ora, este verão, as osgas abusaram. Não se limitaram a andar pela varanda, acharam o interior da casa agradável e, uma bela noite, quando me deitei, vi no teto, aquilo que me pareceu um crocodilo. Soltei o grito da ordem e, lá veio o defensor dos animais, tentar agarrar delicadamente, para não lhe cair a “caudinha”, para não ferir, a “patinha” (chamar patinha, aqueles dedos horrorosos, é cómico), enfim, para não magoar física ou moralmente o adorável “sauriozinho”.  Na manhã seguinte, a empregada, foi à varanda e, voltou com um ar, um tanto ou quanto trocista. “Oh patrãozinho! Olhe que, está uma das suas amigas afogada, no balde do Nabão!” disse ela. Explicação necessária: O balde do Nabão, é um balde com água e lexivia que, está na varanda e serve para limpar os chichis, do dito Nabão. Esclarecido este ponto, vamos à história. O homem corre à varanda, enfia a mão no dito balde, tira a osga, passa-a por várias águas limpas e deita-a ao sol. E não é que, a gaja daí a nada, já estava a trepar a parede!

No dia seguinte, repetiu-se a mesma coisa. Eu ainda alvitrei que, se calhar o bicho estava farto da vida e, tal… Salvou-a outra vez.

Passado um bocado, vou à varanda e, deparo-me com uma tampa de um frasco, cheia de água. Explicação: a osga tinha sede, por isso é que, ia ao balde. Confesso que, fiquei à espera de, no dia seguinte, ver a osga no balde. Não estava. E a tampa tinha menos água.

Se eu sobreviver a isto, talvez um dia, volte a falar do assunto. Por hoje, já estou suficientemente arrepiada, de falar nestes lindos, interessantes e inteligentes sauriozinhos.

Até um dia destes, sem osgas.
 

Posted by Maria at 11:00:21 | Permalink | Comments (11)

Saturday, October 25, 2008

E o Mar respondeu

O Mar de Cascais, frente aos rochedos, chamados Príncipes, ouviu o Bom dia do Bicho. Gostou e respondeu: “Bom dia Bicho e, todos os amigos. Bom fim de semana. Se não tiverem onde ir, venham olhar para mim. Vejam, como sou lindo”.
Mar

E vaidoso, também.
Maria 
  

Posted by Maria at 23:27:18 | Permalink | Comments (4)

Wednesday, October 22, 2008

Lontras no Nabão

Segundo o “Templário”, jornal da minha terra, terão sido avistadas, junto aos “Lagares d’ El Rei”, lontras, uma família completa: pai, mãe, dois filhotes. Tendo a Levada sido esvaziada, para limpeza do Rio, na lama do fundo, notam-se pegadas, dos animais. Descobriram ainda a toca, que habitam.

Segundo parece, escondem-se na zona dos Lagares. Sendo animais noctívagos, será difícil, fotografá-las. Mas as pegadas, vêem-se, nitidamente.

Não sendo caso inédito, o Dr. Fernando Ferreira, tomarense, caçador e grande estudioso das coisas de Tomar, fala nos seus livros, dos mesmos animaizinhos, não é muito frequente, eles aparecerem num sítio barulhento e movimentado, como essa parte do Rio. Segundo o mesmo senhor, as lontras, apareceriam no Agroal ou em alguns trechos da Barragem do Castelo do Bode. São, como já disse noctívagos, espertos, fogem do homem, o que só prova a sua esperteza. É que apesar de, a sua captura ser proibida e punida por lei, há ainda quem as apanhe, para aproveitar a sua bela pele, castanha dourada, para fazer golas de casaco.

Detesto tudo o que seja peles. Não porque as ache feias. São lindas. Mas, num tempo,  em que se conseguem imitações de todas as peles, perfeitíssimas, para quê sacrificar os pobres animais? Deixem-nos viver sossegados. Já chega que, as cheias, a descarga de poluentes, nos rios, o fogo, os dizimem.

Façam lá os casaquinhos, de pele artificial! São quentinhos, metem um vistão e não sacrificam os bichos.

Para isto, não ficar com aspecto de sermão, cá vai uma história verdadeira:

Tenho um vizinho que, em tempos foi caçador e, como tal, bom contador de “causos”. Um belo dia foi à caça e, apanhou uma lontra. No dia seguinte, gabava-se ao meu marido, de ter apanhado um animal perigosíssimo. Tendo dito o que era, o meu marido ficou perplexo. Perigosa, uma lontra? Convém dizer que, o meu marido, detesta tudo o que seja matar, ou fazer mal, a qualquer animal, além de achar que, são todos bonsinhos.

A resposta veio rápida e clara: “Então não são perigosas? Perigosíssimas! Se o Guarda-caça, nos apanha, dá cadeia certa!”

Por isso vos peço que, se lembrem: Não façam mal às Lontras do Nabão. Além de tudo, é perigoso, dá cadeia.

Até um dia destes.    

     

Posted by Maria at 18:25:03 | Permalink | Comments (14)

Monday, October 20, 2008

Santa Iria, a história e a lenda

Qualquer Tomarense saberá que, hoje é “Dia de Santa Iria”.

Também a maior parte, saberá mais ou menos a lenda.

Primeiro, contarei a história, aquilo que, segundo os muitos livros, se sabe de verdade à cerca da Santa da nossa terra.

Iria, ou Irene, era natural de Sellium, filha de Hermenegildo e Eugénia, ricos proprietários. Foi entregue a duas tias, Casta e Júlia, monjas professas do Convento de Santa Clara, hoje chamado de Santa Iria.

Querendo que, a menina tivesse uma educação mais vasta, foi pedido a Célio, seu tio e Dom Abade, do Convento de Frades, então existente, que lhe arranjasse um preceptor, entre os seus frades.

O escolhido, Remígio, era culto, bom cristão, mas apaixonou-se por Iria, sendo por ela repelido. Não era o primeiro a amar Iria. Britaldo, moço rico, de boas famílias, já a amava também, ao ponto de adoecer de amor. Os pais rogaram a Iria que, lhes salvasse o filho. Ela, visitou-o, mas disse-lhe que, nunca poderia ser dele, porque já se tinha dado a Cristo e, seria monja. Britaldo, conformou-se, depois de Iria lhe prometer que, não seria de mais ninguém. Remígio, porém, não se conformou. Deu uma qualquer beberagem a Iria que, ao fim de  pouco tempo, provocou na donzela, todas as aparências, de uma gravidez.

Britaldo, sentindo-se traído, procurou a pobre menina, degolou-a e lançou-a ao Nabão. A Imagem, ainda existente, mostra o sítio do crime. O corpo, seguiu o curso do rio e, foi parar a Santarém. (Santa Iria, Santa Irene, Santarém. O dia do martírio de Iria, seria 20 de Outubro do ano 635 da era de Cristo.

Até aqui, é a história, mais ou menos conhecida de Santa Iria.

O resto é lenda, ou melhor, são lendas. Na busca que fiz, em muitos e variados livros, há lendas de Santa Iria, desde o Ribatejo ao Minho, desde as Beiras ao Algarve, desde os Açores à Galiza e ao Brasil.  Diferem umas das outras, em pequenos pormenores, mas o certo é, que Iria foi degolada. Escolhi, a mais parecida com a que minha Mãe, me lia em pequenina. Vem no “Romanceiro” de Teófilo Braga. 

                   

Santa Iria


Estando eu a coser

Na minha almofada,

Minha agulha de ouro,

Meu dedal de prata,

Passou um cavaleiro,

Pediu-me pousada.

Se meu pai lh’a desse,

Estava mui bem dada;

Deu lh’a minha mãe

Por ser confiada.

Subiu para cima,

Elle se assentou;

Puz-lhe a meza,

Elle ceou;

Fiz-lhe a cama,

Elle se deitou.

Era meia noite dada,

Elle em mim pegou,

Levou-me p’r o monte,

Lá me perguntou

Como me chamava?

Em cas’ de meu pai

Iria a fidalga;

No meio destes montes

Iria coitada.

Por esta palavra

Serás degolada.

Puchou do alfauge

E a degollou;

Coberta de rosas

Alli a deixou.

D’alli a sete annos

Por alli passou:

Pastorinhos novos,

Que guardaes o gado

Que Santa é aquella.

Que está n’aquelle adro?

«É a Santa Iria;

Morreu degollada!

Oh Santa Iria,

Meu amor primeiro,

Perdôa-me a morte,

Serei teu romeiro.

«Não perdôo, não,

Vilão carniceiro,

Da minha garganta

Fizeste carneiro:

Do meu cabellinho

Fizeste dinheiro.

Veste-te de azul

E mais de amarello;

Se Deus te perdoar.

Perdoar-te quero.

 

Está escrito, tal qual o copiei. Respeitei o texto e a grafia.

E aqui está, a lenda e a história da nossa Padroeira.

Faz hoje sete anos, meu Pai, deixou-me. Os seis anos  que, se seguiram à sua morte, desde o dia um, até dia vinte, passei-os a lembrar, minuto a minuto, dia a dia, a longa e dolorosa agonia, desses dias. A dele e a nossa, filhos, genro, nora e netos. Todos nós o amamos, cada um à sua maneira. Este ano, resolvi viver estes dias, de outra forma. Falando de Tomar, a terra que Ele tanto amou e, onde, dizia, tinha sido mais feliz.

Sem deixar de pensar nele, consegui ultrapassar os dias mais difíceis da minha vida, mais calma, voltando a um tempo muito bonito, da minha infância.

A todos vós, meus amigos, agradeço o apoio e a ternura, com que aceitaram as minhas histórias.

Ao meu marido, peço desculpa de algumas “ausências”, algumas fugas, para um mundo, de que ele não fez parte e, agradeço-lhe a ajuda, sem a qual, não chegaria aqui.

Até um dia destes.

Posted by Maria at 15:43:50 | Permalink | Comments (8)

Sunday, October 19, 2008

A Nabantina do Pai Branco

Qualquer dia, irei falar da “Sociedade Banda Republicana Marcial Nabantina”. A Nabantina que, todos conhecem, uma das Bandas de Tomar.

Hoje, falarei de alguém que, esteve ligado a ela, cerca de 20 anos.

Júlio Tavares Branco, para mim, simplesmente, Pai Branco,

nasceu, na freguesia de Pardilhó, concelho de Estarreja.

Desde muito cedo, se interessou pela música que, aprendeu na Banda Filarmónica local. Assentou praça no Regimento de Infantaria nº24, em Aveiro, onde pouco depois foi inscrito como aprendiz de música. Rapidamente foi subindo de posto, continuando sempre a ser músico.

Pelos elementos que tenho e, me foram fornecidos por seu filho, foi assim o seu percurso de militar e músico: em Aveiro, onde permaneceu de Setembro 1919 a Setembro de 1931, formou a Banda do Asilo-Escola da Junta Distrital, ensinou música e no dia 1 de Janeiro de 1929, apresentou ao público, a nova banda. Foi tão grande o seu empenhamento que, quando a banda festejou o 1º aniversário, lhe ofereceu uma batuta, acompanhada de uma carta de agradecimento. Ambas guardou até ao fim da vida. Foi destacado para Chaves, para o “Batalhão de Caçadores n.º 3” em Setembro de 1931 e, aí ficou até Agosto de 1938, como músico militar, sendo louvado duas vezes em Ordem de Serviço (1932 e 1938), pela dedicação, zelo e competência, com que auxiliou a organização do Orfeão da Unidade, que carinhosamente preparou para as suas exibição. Ainda em Chaves, dirigiu a Banda Flaviense e o seu Orfeão.

Em Chaves, nasceu-lhe a mais nova dos cinco filhos. Os outros, três raparigas e um rapaz, tinham todos nascido em Aveiro.

E agora, chega o Pai Branco, a Mãe Pudina (era Leopoldina, mas eu chamava-lhe assim), os filhos e a música a Tomar.

Em Agosto de 1938, continua a sua carreira militar e musical, no glorioso Regimento de Infantaria n.º 15, já como Sargento Ajudante Músico. Pouco depois, assumiu a regência da Nabantina, onde se manteve até 1959, data da sua reforma, com uma pequena pausa em 1949, ano em que dirigiu a banda de Ourém.

Aqui acaba a história militar e musical de Júlio Tavares Branco e, começa a história daquela que foi e é, a minha segunda família. Pai, Mãe, quatro filhas lindas e um filho, militar e músico, como o Pai. Viviam perto da casa onde nasci e da Nabantina. Eram, mais que vizinhos, amigos dos meus Pais. Um dia, eu nasci. Ela, a minha Mãe Pudina, ajudou-me a nascer. Foram os braços dela, os primeiros que, me embalaram. A minha vida era passada entre as duas casas que, na minha cabeça, no meu coração, eram igualmente minhas. Se não gostava do almoço numa, tinha sempre a possibilidade de ir comer na outra. Às vezes dormia lá.

Era uma casa alegre, a deles. Quatro meninas palradoras, que cantavam, riam, me tratavam como se eu fosse a boneca delas. Uma Mãe terna, que me mimava e acarinhava. Um rapaz brincalhão e alegre. E o Pai Branco, bom, amigo e “dono da Nabantina”. Sim, nesse tempo, para mim a Nabantina era dele. As meninas, foram casando, uma é minha prima, o rapaz, saiu de Tomar e casou também. Só uma ficou solteira, a minha Nana que, por mim, subiu de joelhos as escadinhas da Senhora da Piedade. Se eu fosse contar tudo, o que eles foram para mim, ficava aqui todo o dia.
Ele, já velhinho e quase cego, num jantar em casa de uma das filhas, quis-me ao seu lado porque “a minha filha mais pequena, tem obrigação de me ajudar a comer, como as outras”. Eu, já casada e mãe de dois filhos, chorei. Morreu num dia dos meus anos.

Ela, com noventa anos feitos, não me vendo há muito tempo, ouviu a minha voz e, quando a Nana lhe perguntou se sabia quem era, respondeu: “Desde quando é que uma mãe, esquece a voz dos filhos?”. Chorei de novo. Depois, contou ao meu marido e ao meu filho mais novo, a história do meu nascimento. Também já foi embora. Dos filhos, duas já morreram. Os outros, continuam a ser os meus “irmãos”, continuamos a ter contacto, embora nos vejamos pouco.

Obrigada, Zé Júlio, pelos elementos que me deste. Obrigada, Lupe, minha prima irmã, pela tua amizade. Obrigada, a todos por me terem dado uma segunda família, apesar de eu já ter uma muito boa também.

Hoje, fazia anos o Pai Branco. Lá, onde está, junto da mulher, das duas filhas, dos genros, dos meus pais, de todos os amigos que partiram, ele sabe quanto gostei dele e de todos.

Tomarenses, este Homem, não nasceu em Tomar, mas viveu e morreu aí. Foi tomarense de alma e coração.

Hoje a Maria, escreveu muito e, se calhar foi chata. Mas falar de Tomar sem falar deles, era traição, ingratidão, defeitos que eu não tenho.

Até um dia destes.               

 

Posted by Maria at 10:22:34 | Permalink | Comments (2)

Saturday, October 18, 2008

A minha Boneca Iria

Pois foi assim. Um tio, tinha-me dado dinheiro para comprar uma boneca. Corri as barracas de brinquedos, olhei para uma e, já não houve maneira, de me darem a volta. Era grande, de papelão, com braços, pernas e cabeça, presos por ganchos e elásticos. Tinha olhos castanhos, pintados, como pintado era o cabelo. Mostraram-me outras, de celulóide, de pano, com caras de borracha. Eu, queria aquela. “Era feia, talvez, mas eu achei-a linda” (Dr. Júlio Dantas, “A Ceia dos Cardeais”, fala do cardeal português).

Levei a boneca para casa, dormi com ela, chamei-lhe Iria. Ora, a Iria deu-me momentos de prazer, momentos de preocupação, porque de quando em vez, os elásticos partiam, os ganchos saltavam e, ela ficava transformada numa coisa estranha: braços para um lado, pernas para o outro e a cabeça, bem, a cabeça ficava transformada numa bola, com que o meu irmão e os outros, atiravam uns aos outros, para me verem rabiar. Havia um, mais caridoso, (olá V.M.) que quando apanhava a infeliz cabeça, tornava a montar a boneca e, devolvia-ma. Eu amei, aquela triste mona. Durou uns anos, depois desapareceu. Tive mais bonecas, algumas mais bonitas. Ainda hoje tenho muitas. São uma das minhas paixões. Mas a minha Iria, que tanta alegria e, tantas ralações me deu, não a esqueço.

Até amanhã.

    

Posted by Maria at 15:39:36 | Permalink | Comments (5)

Friday, October 17, 2008

A feira está a chegar

 

Já oiço os martelos a pregar estacas, para montar os circos e as barracas. Já ouvi e vi, os palhaços passarem pelas ruas, distribuindo panfletos onde constam as suas principais atracções. Já as barracas de comes e bebes, vão abrindo timidamente as portas, mostrando as mesas e bancos corridos, os pipos de vinho, os copos alinhados. Já as loiceiras, desembrulham cuidadosamente, as loiças, os bonecos, os santinhos, os belos penicos, decorados, com paisagens bucólicas, flores e até imagens piedosas. Nas barracas da roupa, já penduraram as samarras ribatejanas, com golas de raposa, os safões, espécie de calças de pele, atacadas com cordões, as belas mantas ribatejanas, cheias de cor e quentinhas como o colo das mães, as boinas, os velhos chapéus de aba. Os brinquedos de madeira, de lata, as bonecas de papelão ou celulóide, que enchem  (enchiam) de sonhos, as cabecinhas miúdas, de grandes olhos, arregalados pela cobiça, de tais tesouros, já se mostram, nas respectivas barracas. E há carroceis, pistas de carrinhos.
Os circos já estão montados. No ar paira, o cheiro das castanhas, do carvão, das farturas, do algodão doce, da fruta de Tomar, desculpem, mas é a melhor do mundo, tem um cheiro, um gosto diferente. Os tremoços, os amendoins, as passas, misturam-se em cestos de verga, em alguidares de barro. As mulheres, de grandes aventais, lenços, mais ou menos garridos na cabeça e xailes de lã (na Santa Iria já faz frio), tomam conta da mercadoria, enquanto falam, de um modo cantante, que eu ainda conservo.
No dia 19, era a feira das passas. Munidas de seiras de palha ou, cabazes de verga (os sacos de plástico, eram desconhecidos), as boas donas de casa, rumavam à feira para comprar os belos frutos secos que, no próximo 1 de Novembro, seriam distribuídas pelos meninos que pediriam “O pão por Deus”, e no Natal seguinte, iriam enfeitar a mesa da Consoada. Havia a noite de ir ao Circo, noite de festa, de emoções. Que lindas eram as trapezistas! Como era belo o seu voo, até aos braços que, as esperavam do outro lado! E os palhaços, que de caras pintadas, escondendo a tristeza, a miséria, quem sabe a fome, nos faziam rir!
Era esta a minha feira. Iluminada com uma luz fraquinha, (obrigada, Sr. Mendes Godinho), e candeeiros de petróleo, tremeluzindo, dentro das barracas.
Há seis anos, voltei à Feira. Tem muitas luzes psicadélicas, muita música (?) ao vivo e gravada, num tom, que choca profundamente, os meus velhos ouvidos. E as luzes, perdoem-me, os novos, ferem- me os olhos, baralham-me a cabeça. Eu sei, que tudo muda. A cada instante, “O mundo pula e avança” mas eu não consigo mudar. Por dentro, claro. Velha por fora, mas por dentro, serei sempre, a “trancinhas”, de olhos arregalados para a feira, para Tomar, para o Nabão, para “Os Tabuleiros”, para as bandas de música, os foguetes.
Gozem a vossa Feira, Tomarenses de hoje. Comam as últimas sardinhas do ano, tradicionalistas do meu tempo. Eu, vou ficar aqui, lembrando cada dia da minha Feira, com saudade, com algumas lágrimas e, muito, muito amor, pela minha Terra.
Até amanhã, com certeza, em Tomar, na minha feira, ou perto.

Posted by Maria at 17:42:54 | Permalink | Comments (10)