Qualquer dia, irei falar da “Sociedade Banda Republicana Marcial Nabantina”. A Nabantina que, todos conhecem, uma das Bandas de Tomar.
Hoje, falarei de alguém que, esteve ligado a ela, cerca de 20 anos.
Júlio Tavares Branco, para mim, simplesmente, Pai Branco,
nasceu, na freguesia de Pardilhó, concelho de Estarreja.
Desde muito cedo, se interessou pela música que, aprendeu na Banda Filarmónica local. Assentou praça no Regimento de Infantaria nº24, em Aveiro, onde pouco depois foi inscrito como aprendiz de música. Rapidamente foi subindo de posto, continuando sempre a ser músico.
Pelos elementos que tenho e, me foram fornecidos por seu filho, foi assim o seu percurso de militar e músico: em Aveiro, onde permaneceu de Setembro 1919 a Setembro de 1931, formou a Banda do Asilo-Escola da Junta Distrital, ensinou música e no dia 1 de Janeiro de 1929, apresentou ao público, a nova banda. Foi tão grande o seu empenhamento que, quando a banda festejou o 1º aniversário, lhe ofereceu uma batuta, acompanhada de uma carta de agradecimento. Ambas guardou até ao fim da vida. Foi destacado para Chaves, para o “Batalhão de Caçadores n.º 3” em Setembro de 1931 e, aí ficou até Agosto de 1938, como músico militar, sendo louvado duas vezes em Ordem de Serviço (1932 e 1938), pela dedicação, zelo e competência, com que auxiliou a organização do Orfeão da Unidade, que carinhosamente preparou para as suas exibição. Ainda em Chaves, dirigiu a Banda Flaviense e o seu Orfeão.
Em Chaves, nasceu-lhe a mais nova dos cinco filhos. Os outros, três raparigas e um rapaz, tinham todos nascido em Aveiro.
E agora, chega o Pai Branco, a Mãe Pudina (era Leopoldina, mas eu chamava-lhe assim), os filhos e a música a Tomar.
Em Agosto de 1938, continua a sua carreira militar e musical, no glorioso Regimento de Infantaria n.º 15, já como Sargento Ajudante Músico. Pouco depois, assumiu a regência da Nabantina, onde se manteve até 1959, data da sua reforma, com uma pequena pausa em 1949, ano em que dirigiu a banda de Ourém.
Aqui acaba a história militar e musical de Júlio Tavares Branco e, começa a história daquela que foi e é, a minha segunda família. Pai, Mãe, quatro filhas lindas e um filho, militar e músico, como o Pai. Viviam perto da casa onde nasci e da Nabantina. Eram, mais que vizinhos, amigos dos meus Pais. Um dia, eu nasci. Ela, a minha Mãe Pudina, ajudou-me a nascer. Foram os braços dela, os primeiros que, me embalaram. A minha vida era passada entre as duas casas que, na minha cabeça, no meu coração, eram igualmente minhas. Se não gostava do almoço numa, tinha sempre a possibilidade de ir comer na outra. Às vezes dormia lá.
Era uma casa alegre, a deles. Quatro meninas palradoras, que cantavam, riam, me tratavam como se eu fosse a boneca delas. Uma Mãe terna, que me mimava e acarinhava. Um rapaz brincalhão e alegre. E o Pai Branco, bom, amigo e “dono da Nabantina”. Sim, nesse tempo, para mim a Nabantina era dele. As meninas, foram casando, uma é minha prima, o rapaz, saiu de Tomar e casou também. Só uma ficou solteira, a minha Nana que, por mim, subiu de joelhos as escadinhas da Senhora da Piedade. Se eu fosse contar tudo, o que eles foram para mim, ficava aqui todo o dia.
Ele, já velhinho e quase cego, num jantar em casa de uma das filhas, quis-me ao seu lado porque “a minha filha mais pequena, tem obrigação de me ajudar a comer, como as outras”. Eu, já casada e mãe de dois filhos, chorei. Morreu num dia dos meus anos.
Ela, com noventa anos feitos, não me vendo há muito tempo, ouviu a minha voz e, quando a Nana lhe perguntou se sabia quem era, respondeu: “Desde quando é que uma mãe, esquece a voz dos filhos?”. Chorei de novo. Depois, contou ao meu marido e ao meu filho mais novo, a história do meu nascimento. Também já foi embora. Dos filhos, duas já morreram. Os outros, continuam a ser os meus “irmãos”, continuamos a ter contacto, embora nos vejamos pouco.
Obrigada, Zé Júlio, pelos elementos que me deste. Obrigada, Lupe, minha prima irmã, pela tua amizade. Obrigada, a todos por me terem dado uma segunda família, apesar de eu já ter uma muito boa também.
Hoje, fazia anos o Pai Branco. Lá, onde está, junto da mulher, das duas filhas, dos genros, dos meus pais, de todos os amigos que partiram, ele sabe quanto gostei dele e de todos.
Tomarenses, este Homem, não nasceu em Tomar, mas viveu e morreu aí. Foi tomarense de alma e coração.
Hoje a Maria, escreveu muito e, se calhar foi chata. Mas falar de Tomar sem falar deles, era traição, ingratidão, defeitos que eu não tenho.
Até um dia destes.